Em resposta a Flávio Bolsonaro, Marco Rubio cita PCC, CV e tarifas, mas deixa porta aberta para futuro governo
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, enviou uma carta ao senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) reforçando a postura do governo Donald Trump de aplicar novas tarifas comerciais contra o Brasil. O documento, enviado na última terça-feira (23) e obtido com exclusividade pela coluna, surge como resposta a um apelo feito pelo parlamentar brasileiro no início de junho. Na ocasião, Flávio tentou conter um novo “tarifaço”, argumentando que as sanções trariam sérios danos à população e destacando sua confiança na vitória eleitoral em outubro como um caminho para redefinir as relações diplomáticas entre Brasília e Washington.
A correspondência de Flávio havia sido divulgada logo após o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) concluir uma investigação baseada na Seção 301, que avalia práticas comerciais estrangeiras prejudiciais aos interesses americanos. A movimentação do parlamentar foi vista como uma tentativa de gerenciamento de crise. Isso porque a ofensiva econômica de Washington acabou ofuscando os dividendos políticos de sua recente viagem aos EUA, que ocorreu dias antes do anúncio americano que classificou as facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
A resposta de Washington e o impasse econômico
Na réplica enviada ao brasileiro, Marco Rubio adotou uma postura diplomática, mas intransigente no campo econômico. O secretário de Estado agradeceu o apoio de Flávio à designação das facções criminosas como terroristas e classificou como “generosa” a sugestão do parlamentar de criar uma equipe de transição conjunta caso ele vença as eleições presidenciais. No entanto, o chefe da diplomacia americana não recuou nas pressões comerciais e evitou comentar diretamente as preocupações socioeconômicas listadas pelo filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Rubio reafirmou a posição de Washington contra políticas brasileiras que, segundo o governo Trump, prejudicam o mercado americano, citando textualmente o sistema de pagamentos Pix. O secretário ponderou que a condução das investigações comerciais e a proposta do tarifaço não competem diretamente à sua pasta, mas sim ao chefe do USTR, Jamieson Greer. Ele enfatizou que persistem divergências substanciais sobre as irregularidades apontadas no relatório, que envolvem desde comércio digital, propriedade intelectual e combate à corrupção até o acesso ao mercado de etanol e o desmatamento ilegal.
Próximos passos e a estratégia eleitoral
Como alternativa para o debate, Rubio sinalizou que os ritos da investigação comercial preveem consultas e uma audiência pública coordenada pelo USTR, espaço em que a situação do Brasil poderá ser formalmente discutida. Diante disso, Flávio Bolsonaro anunciou que se inscreveu para discursar no fórum e confirmou que viajará aos Estados Unidos para participar do encontro. Nas redes sociais, a estratégia da campanha bolsonarista é pintar a viagem como um esforço direto para sensibilizar a gestão Trump e blindar o país de sanções, utilizando o palanque internacional para projetar uma eventual derrota do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas urnas.
O cenário expõe uma dualidade na diplomacia americana: mesmo a ala mais ideológica do trumpismo sinaliza que Washington precisará dialogar e conviver com quem quer que seja o presidente eleito em outubro. O embate atual contrasta com o clima do encontro presencial entre Rubio e Flávio, ocorrido em Washington no fim de maio. Na época, antes da conclusão do relatório comercial que azedou o clima econômico, o senador brasileiro chegou a celebrar a agenda publicamente, exaltando o fortalecimento das relações bilaterais em torno da defesa da liberdade e dos valores compartilhados entre as duas nações.