China e Rússia firmam parceria espacial e de defesa em encontro de Xi Jinping e Putin em claro sinal ao Ocidente
O presidente chinês, Xi Jinping, recebeu o líder russo, Vladimir Putin, em Pequim, em uma demonstração pública de força e alinhamento estratégico. Durante o encontro de alto nível no Grande Salão do Povo, Xi alertou que o cenário internacional corre o risco de regredir à “lei da selva” devido ao avanço do hegemonismo e do unilateralismo. O líder chinês elogiou a relação entre Pequim e Moscou, classificando-a como uma força estabilizadora essencial em um mundo que descreveu como caótico e marcado por rivalidades geopolíticas crescentes.
A recepção de Putin ocorreu com pompa e circunstância, poucos dias após a visita do presidente norte-americano Donald Trump à capital chinesa. Soldados posicionados e uma banda militar executando os hinos nacionais marcaram a solenidade, enquanto crianças acenavam com bandeiras de ambos os países. A atmosfera remeteu ao recente encontro entre Xi e Trump, no qual as duas maiores economias do mundo debateram temas sensíveis como comércio, investimentos e as tensões envolvendo o Irã e Taiwan. A proximidade cronológica dos eventos colocou a agenda russa sob forte escrutínio internacional.
Diálogo restrito e acordos bilaterais
As conversações entre as delegações da China e da Rússia começaram com uma reunião em formato restrito para tratar de temas delicados, evoluindo posteriormente para um debate ampliado. Ao final do encontro, os mandatários assinaram mais de 20 documentos de cooperação que abrangem tecnologia, comércio, pesquisa científica e propriedade intelectual. O principal destaque jurídico foi a extensão do Tratado China-Rússia de Boa Vizinhança e Cooperação Amistosa, originalmente firmado há 25 anos.
Após as assinaturas, Xi Jinping declarou que os laços bilaterais atingiram o nível mais alto de parceria estratégica abrangente. O presidente chinês aproveitou a oportunidade para defender um cessar-fogo abrangente e urgente no Oriente Médio, classificando novas hostilidades na região como desaconselháveis. Vladimir Putin, por sua vez, ressaltou que a relação alcançou patamares sem precedentes e reafirmou o papel de Moscou como fornecedor confiável de energia, além de convidar formalmente o homólogo chinês para uma visita oficial à Rússia no próximo ano.
Cooperação em defesa, espaço e economia
A cúpula resultou na adoção de uma declaração conjunta focada no aprofundamento das relações e na segurança mútua. No segmento voltado à defesa, os países se comprometeram a elevar a confiança militar por meio da expansão de exercícios conjuntos e patrulhas aéreas e marítimas integradas. O documento também detalhou uma robusta agenda espacial, prevendo investimentos na Estação Científica Lunar Internacional, na exploração do espaço profundo e na conectividade por meio de internet via satélite e Internet das Coisas.
No campo econômico, o foco esteve voltado para a sustentabilidade da Rússia diante das sanções ocidentais decorrentes do conflito na Ucrânia. A China consolidou-se como o principal parceiro comercial de Moscou, absorvendo atualmente quase metade das exportações de petróleo russas. O comunicado conjunto repudiou formalmente o uso de sanções unilaterais, barreiras alfandegárias discriminatórias e restrições secundárias, pedindo a proteção ao sistema multilateral de comércio regido pelas normas da Organização Mundial do Comércio.
A construção de uma Nova Ordem Multipolar
O cerne político da declaração conjunta baseou-se na rejeição ao que os líderes chamaram de tentativas coloniais de potências ocidentais de gerir os assuntos globais de forma unilateral. De acordo com o documento, o sistema internacional do século XXI passa por uma transição definitiva rumo à policentricidade, onde novas potências emergentes devem ter maior peso nas decisões globais. Os dois presidentes defenderam o fortalecimento de blocos como o BRICS e a Organização de Cooperação de Xangai como alternativas viáveis à governança tradicional liderada por Washington.
Para além dos compromissos formais, a sintonia pessoal entre Xi e Putin ficou evidente quando os líderes dispensaram as gravatas durante um chá em Zhongnanhai, repetindo um gesto de descontração já visto em encontros anteriores. Paralelamente, nos bastidores diplomáticos, o Kremlin indicou que os canais de diálogo continuam abertos em múltiplas direções, não descartando uma possível reunião entre Putin e Donald Trump em novembro, durante a realização da cúpula da Apec na China.