UE aprova acordo com Mercosul, mas enfrenta fúria de agricultores e ameaça da França
O cenário político em Bruxelas foi marcado nesta sexta-feira por um avanço decisivo, embora polarizado: a maioria dos Estados-membros da União Europeia deu o aval para o acordo de livre comércio com o Mercosul. O tratado, que envolve Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, levou 25 anos para ser finalizado e é consolidado como a maior negociação comercial já realizada pelo bloco europeu.
A expectativa é que o documento seja oficialmente selado na próxima semana, em solo sul-americano, representando um passo estratégico para Bruxelas na tentativa de reduzir a dependência econômica em relação aos Estados Unidos e à China.
Onda de protestos e divisão interna ameaçam coesão do bloco
Apesar da aprovação, o clima é de tensão. Manifestações massivas de agricultores tomaram as ruas de capitais como Paris e Varsóvia, refletindo a insatisfação de setores que temem a concorrência dos produtos sul-americanos. No campo diplomático, a rachadura é evidente: França, Polônia, Irlanda, Hungria e Áustria votaram contra o texto, enquanto a Bélgica optou pela abstenção.
A vitória do “sim” foi garantida pela mudança de posicionamento da Itália, que abandonou a resistência das últimas semanas para apoiar o pacto. Críticos alertam que ignorar a oposição de nações importantes pode fortalecer movimentos eurocéticos, como o liderado por Marine Le Pen, que já defende a suspensão de repasses financeiros franceses ao orçamento da UE.
Disputa comercial com os EUA e pressão sobre a China
Paralelamente ao Mercosul, Bruxelas observa com cautela os desdobramentos jurídicos nos Estados Unidos. A Suprema Corte americana deve decidir sobre a legalidade das tarifas impostas pela gestão de Donald Trump, medida que visava reduzir o déficit comercial com a Europa.
Em tom assertivo, o conselheiro comercial da Casa Branca, Peter Navarro, defendeu a manutenção das taxas e instou a Europa a seguir o exemplo americano, elevando tarifas contra a China para evitar que o mercado europeu seja inundado por produtos chineses que deixaram de entrar nos EUA. Navarro defende uma ação coordenada para combater o que chama de “práticas desonestas” de Pequim, sugerindo que a Europa adote taxas tão rigorosas quanto as aplicadas pelo México.
Impacto econômico e a “batalha final” no Parlamento Europeu
O acordo promete uma revolução tarifária, eliminando cerca de 4 bilhões de euros em impostos sobre exportações europeias, especialmente em setores como maquinário e produtos químicos. Em contrapartida, o Mercosul ganha terreno na exportação de commodities e produtos minerais. Para tentar mitigar a resistência agrícola, a Comissão Europeia incluiu cláusulas de salvaguarda e fundos de crise, mas o governo francês já sinalizou que a disputa continuará no Parlamento Europeu.
Com a votação final prevista para o segundo trimestre, entre abril e maio, o bloco se divide entre o otimismo de lideranças alemãs e o alerta de grupos ambientalistas, que classificam o tratado como prejudicial às metas climáticas globais.