EUA sobem o tom e propõem barreira tarifária global contra 60 países por trabalho forçado; Brasil está na lista

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Uma investigação conduzida pelo governo dos Estados Unidos concluiu que 60 países, incluindo o Brasil, falharam em proibir e fiscalizar a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. Como resposta imediata, o Escritório de Comércio dos EUA (USTR) propôs a aplicação de tarifas adicionais sobre os produtos dessas nações, sob a justificativa de que a negligência cria uma concorrência desleal que prejudica diretamente as empresas e os trabalhadores americanos.

A decisão foi respaldada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, após um processo investigativo iniciado em março deste ano. A diplomacia americana classificou a postura das economias afetadas como “irracional”, destacando que a circulação global de bens produzidos a custos artificialmente baixos não apenas pune o mercado ético, mas também incentiva a manutenção do trabalho escravo moderno. O embaixador Jamieson Greer reforçou que o país não tolerará mais que os trabalhadores americanos compitam em um campo desigual.

Divisão de alíquotas e o cenário brasileiro

A proposta americana estabeleceu dois níveis distintos de sobretaxação para os países investigados. O primeiro grupo, que contará com uma tarifa adicional de 10%, engloba as nações que já possuem alguma proibição parcial ou compromissos firmados por meio de acordos de comércio recíproco: União Europeia, México, Canadá, Indonésia, Paquistão e Equador. O segundo bloco, sujeito a uma taxação mais severa de 12,5%, atinge os mercados sem regimes eficazes de controle, incluindo Brasil, China, Índia, Japão, Coreia do Sul, Reino Unido, Argentina e Arábia Saudita.

No que tange ao Brasil, os investigadores apontaram que, embora o país assuma compromissos formais contra o trabalho escravo em tratados de livre comércio, falta uma barreira legal interna eficaz que impeça a entrada de mercadorias estrangeiras produzidas sob exploração no próprio mercado brasileiro. O relatório reconheceu a existência da “Lista Suja” nacional, mas enfatizou que o foco da punição é a ausência de fiscalização sobre o que o Brasil importa de outras economias.

O paradoxo da carne bovina e a concorrência com a China

O relatório dedica um capítulo específico à pecuária brasileira, associando o setor ao trabalho escravo com base em dados de pesquisas independentes e relatórios do próprio governo americano. O documento sugere que o uso dessas práticas garantiu uma vantagem competitiva desleal ao produto brasileiro, o que teria provocado a queda das exportações de carne congelada dos EUA para a China. Entre 2021 e 2025, a fatia brasileira no mercado chinês saltou de 38% para 53%, enquanto a participação americana despencou de 6% para 2%. Em termos de preço, o valor médio da carne brasileira importada em 2025 foi 41% menor que o da concorrente norte-americana.

Apesar das duras acusações e da conclusão de que o comércio foi severamente distorcido, a proposta apresenta uma contradição: diversos tipos de carnes bovinas congeladas foram incluídos na lista de produtos isentos da nova tarifa. O relatório admite que fatores como o tamanho do rebanho norte-americano influenciam a disputa comercial, mas sustenta que, sem a tolerância à exploração laboral, os EUA teriam registrado melhores volumes de venda.

A nova lista de isenções proposta pelos EUA gerou dúvidas no mercado internacional por apresentar divergências em relação a outras investigações comerciais em andamento. No caso específico do Brasil, itens como minérios de ferro, alguns tipos de celulose, máquinas de embalagem e pedras preciosas — que eram poupados em processos anteriores — não foram incluídos nos benefícios desta nova barreira contra o trabalho forçado. Por outro lado, o governo americano concedeu isenções automáticas para produtos vindos de parceiros estratégicos com acordos comerciais específicos, como México e Canadá, sem detalhar publicamente os critérios técnicos utilizados para essas distinções.

A aplicação das tarifas ainda não é definitiva e passará por um rito de consulta pública. O governo dos EUA receberá manifestações e comentários por escrito de representantes setoriais e governos estrangeiros até o dia 6 de julho de 2026. Logo no dia seguinte, 7 de julho, o USTR realizará audiências públicas presenciais para debater os impactos e a formatação final das sanções propostas.

Relação completa dos países afetados

A investigação identificou falhas estruturais em 60 economias globais. A lista completa dos países que estão na mira das novas tarifas americanas é composta por: África do Sul, Argélia, Angola, Argentina, Austrália, Bahamas, Bahrein, Bangladesh, Brasil, Camboja, Canadá, Catar, Cazaquistão, Chile, China, Colômbia, Coreia do Sul, Costa Rica, Egito, El Salvador, Emirados Árabes Unidos, Equador, Filipinas, Guatemala, Guiana, Honduras, Hong Kong (Região Administrativa Especial da China), Índia, Indonésia, Iraque, Israel, Japão, Jordânia, Kuwait, Líbia, Malásia, Marrocos, México, Nicarágua, Nigéria, Noruega, Nova Zelândia, Omã, Paquistão, Peru, Reino Unido, República Dominicana, Rússia, Arábia Saudita, Singapura, Sri Lanka, Suíça, Taiwan, Tailândia, Trinidad e Tobago, Turquia, União Europeia, Uruguai, Venezuela e Vietnã.

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