Europa articula criação de “OTAN própria” para garantir defesa caso os EUA deixem a aliança
A possibilidade de um desengajamento dos Estados Unidos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) desencadeou um movimento sem precedentes nos bastidores da diplomacia continental. Autoridades europeias articulam agora a criação de uma estrutura de defesa autônoma, frequentemente chamada de “OTAN Europeia”, com o objetivo central de substituir os ativos e a liderança militar americana em solo europeu. Segundo informações divulgadas pelo Wall Street Journal, o plano foca em estabelecer oficiais do continente em posições estratégicas de comando e controle, garantindo que a segurança regional não entre em colapso caso Washington decida abandonar a aliança.
Embora a proposta tenha enfrentado resistência inicial de membros tradicionais da organização, o cenário mudou drasticamente nos últimos meses. O apoio da Alemanha foi o divisor de águas que deu tração ao projeto, transformando uma ideia antes teórica em um plano de contingência real. Diferente de uma força concorrente, essa nova arquitetura militar é desenhada para complementar a estrutura existente, focando na preservação da dissuasão nuclear e na coesão tática contra a influência russa, servindo como uma “apólice de seguro” para a autonomia militar da Europa.
A gênese desse distanciamento remonta a um período de tensões acentuadas com o governo de Donald Trump. O projeto, que começou a ser delineado há cerca de um ano, ganhou urgência após episódios diplomáticos atípicos — como o interesse americano na compra da Groenlândia — e críticas recentes do presidente dos EUA sobre a suposta falta de cooperação europeia em conflitos no Oriente Médio. O atual secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, já sinalizou essa mudança de paradigma, reforçando que a aliança busca reduzir a dependência crônica de oficiais americanos em favor de uma gestão majoritariamente liderada por europeus.
A fragilidade da relação transatlântica tornou-se ainda mais evidente com a recusa explícita dos aliados europeus em aderir ao bloqueio do Estreito de Ormuz. A iniciativa de Trump de paralisar o tráfego marítimo na região, após o fracasso de negociações com o Irã, não encontrou eco entre as nações do bloco. Essa negativa aprofundou o atrito com a Casa Branca, que reagiu com ameaças de retirada de tropas e críticas à restrição do uso de espaços aéreos por aeronaves militares dos EUA. O impasse evidencia uma Europa que, embora ainda vinculada à OTAN, prepara-se aceleradamente para um futuro onde a proteção americana não seja mais uma garantia absoluta.