Com tarifa de 25% em vigor hoje, Brasil pode sofrer novo imposto dos EUA contra trabalho forçado
A partir de hoje, a tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre as importações brasileiras passa a valer formalmente. Determinada pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), a cobrança incide sobre os embarques realizados após a 0h01 no horário da Costa Leste norte-americana (1h01 no horário de Brasília). O início da medida, contudo, concede uma breve margem para as mercadorias que já se encontravam em trânsito com destino à América do Norte: produtos que desembarcarem e forem retirados dos armazéns portuários até a próxima quarta-feira (29) manterão a isenção do imposto.
A justificativa oficial apresentada pelo USTR baseia-se em supostas “práticas desleais” por parte do Brasil. Entre as alegações, o governo norte-americano cita decisões da Justiça brasileira contra a remoção de conteúdos em redes sociais sediadas nos EUA, a expansão do sistema Pix — avaliada por Washington como prejudicial às empresas de pagamento do país —, além de críticas à gestão ambiental no combate ao desmatamento e falhas no combate à corrupção.
Cerca de 3 mil produtos afetados e prejuízo bilionário
A nova taxação promete gerar um forte impacto no fluxo de comércio exterior. Estimativas apresentadas pela Amcham Brasil projetam que aproximadamente 3.000 produtos serão atingidos, com um risco potencial de perda comercial que pode alcançar até US$ 11 bilhões em negócios frustrados. Pela ótica do governo brasileiro, os cálculos do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) indicam um impacto direto sobre 18% do total das exportações destinadas aos EUA, tomando como base os dados de 2024, o que representa cerca de US$ 7,4 bilhões sob sobretaxa.
O quadro ganha peso estratégico ao se observar o papel crucial do mercado norte-americano para a balança comercial do país. Em 2025, os Estados Unidos figuraram como o segundo maior parceiro comercial do Brasil, absorvendo US$ 37,7 bilhões em mercadorias brasileiras (10,8% do total exportado), posição que fica atrás apenas da China, que respondeu por US$ 99,9 bilhões do total de US$ 348,3 bilhões comercializados pelo Brasil no período.
Isenções pontuais protegem setores estratégicos
Apesar do alcance amplo do tarifaço, a diplomacia comercial dos EUA estabeleceu exceções para mais de 2.100 produtos. A lista de isenções contempla 864 artigos diversos, como alimentos e minérios; 546 itens do setor aeronáutico não militar, cobrindo motores e peças de fabricação; e 705 produtos da indústria farmacêutica, com foco em medicamentos com patente vigente. Entre os produtos alimentícios preservados da cobrança adicional, destacam-se cortes de carne bovina, pescados, açaí e frutas frescas como bananas, goiabas, mangas, mamões, abacates, cocos e abacaxis.
Segundo o governo norte-americano, os critérios adotados para garantir a isenção consideraram matérias-primas essenciais com risco de desabastecimento no mercado interno, produtos capazes de causar interrupção na economia local, itens sem oferta suficiente e sem opções de fornecimento externo a preços razoáveis, além de bens em que a aplicação da tarifa não teria eficácia para inibir as alegadas práticas desleais do Brasil.
Nova sobretaxa de 12,5% e acusações de trabalho forçado
O cenário comercial pode sofrer um novo revés até a próxima sexta-feira (24), data em que os Estados Unidos planejam anunciar uma segunda sobretaxa de 12,5%, direcionada a países acusados de ineficiência no combate ao trabalho forçado. A medida abrange 60 economias responsáveis por 99% das importações do país. De acordo com o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, a concorrência com produtos fabricados em ambientes de trabalho irregular compromete a competitividade dos trabalhadores americanos.
No relatório divulgado pelo USTR, o governo norte-americano aponta indícios do uso de trabalho forçado na produção pecuária brasileira, sustentando que a prática teria contribuído para dobrar as vendas de carne do Brasil para países sob investigação ao longo da última década. Diante da nova ameaça, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, demonstrou apreensão quanto ao caráter universal da norma e ressaltou que o governo aguarda a definição final para compreender se as taxas serão cumulativas — atingindo 37,5% somadas — ou se haverá exclusões mútuas.
Em resposta às decisões norte-americanas, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) contestou as alegações e ressaltou que os EUA mantêm um expressivo superávit no comércio com o Brasil. O Planalto afirmou que não existem justificativas para ações unilaterais e rejeitou a legitimidade de investigações conduzidas sem respaldo nas regras multilaterais do comércio internacional.
Paralelamente, a equipe econômica organiza um plano de contingência para socorrer as empresas nacionais. O governo prepara mecanismos de apoio baseados no Programa Brasil Soberano, focados na oferta de crédito para aliviar o caixa dos setores prejudicados. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, explicou que a estrutura atual será recalibrada para atender às novas demandas, com um aporte orçamentário ajustado. Durigan descartou ainda qualquer intenção de promover retaliações imediatas, esclarecendo que o Executivo avalia a aplicação de medidas no âmbito da Lei da Reciprocidade, a serem adotadas na dosagem e no momento oportunos.