Celso Amorim classifica como “inaceitável” pretexto para intervenção estrangeira após ação dos EUA
O governo dos Estados Unidos anunciou a decisão de classificar as duas maiores facções criminosas do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), como organizações terroristas. De acordo com o Departamento de Estado americano, a medida entrará em vigor a partir do dia 5 de junho. O órgão justificou a ação afirmando que ambas as facções comandam milhares de membros, orquestram ataques brutais contra policiais, servidores públicos e civis, e possuem influência ilícita que ultrapassa as fronteiras brasileiras, alcançando outros países da região e os próprios Estados Unidos.
A designação oficial enquadra os grupos em duas categorias distintas de Washington: “Terroristas Globais Especialmente Designados” e “Organizações Terroristas Estrangeiras”. Enquanto a primeira classificação foca no estrangulamento financeiro, permitindo o bloqueio de bens e sanções econômicas contra integrantes e apoiadores, a segunda cria uma base legal robusta para investigações e processos criminais conduzidos pelas autoridades americanas contra grupos estrangeiros que ameacem a sua segurança nacional.
Reação imediata e o temor de intervenção externa
A resposta do Palácio do Planalto foi imediata por meio do assessor especial para assuntos internacionais, Celso Amorim. O diplomata afirmou que, embora o crime organizado seja um mal a ser combatido com energia e determinação, a segurança pública é um tema de soberania nacional. Amorim ressaltou que a cooperação internacional é bem-vinda em áreas específicas, como o combate à lavagem de dinheiro e ao contrabando de armas, mas alertou que a classificação das facções como terroristas não ajuda no processo e que o uso desse pretexto para justificar intervenções externas é inaceitável.
Nos bastidores, o governo brasileiro vinha atuando para tentar impedir que a administração de Donald Trump adotasse a medida. O receio no Palácio do Planalto é de que a rotulação abra margem para ações unilaterais e mais agressivas por parte de Washington. Em cenários considerados extremos, a diplomacia brasileira teme que os Estados Unidos utilizem esse argumento jurídico para conduzir operações militares em território nacional, repetindo o que já ocorreu em outras nações. Especialistas em segurança pública no Brasil também ponderam que a atual legislação brasileira de combate a facções criminosas já prevê punições mais severas do que a própria lei antiterrorismo local.
Monitoramento diplomático e articulação política
Até o momento, a Presidência da República e o Ministério das Relações Exteriores não emitiram uma nota oficial, uma vez que o Itamaraty ainda não recebeu um comunicado formal do governo americano. Contudo, fontes diplomáticas indicam que a estratégia atual consiste em monitorar de perto os desdobramentos, analisar o conteúdo detalhado da decisão e estudar os impactos práticos com base no histórico de outros países que já sofreram sanções semelhantes. A movimentação de Washington não pegou os diplomatas brasileiros de surpresa, que já acompanhavam o cenário, mas o Brasil pretende manter a linha de defesa do diálogo e da cooperação internacional estruturada.
Por outro lado, o anúncio foi amplamente comemorado pela oposição ao governo federal. A medida foi divulgada apenas um dia após o senador Flávio Bolsonaro se reunir na Casa Branca com o presidente Donald Trump e com o secretário de Estado americano, Marco Rubio. O parlamentar celebrou a decisão nas redes sociais. Em contrapartida, Rubio reforçou publicamente que o governo americano continuará utilizando todas as ferramentas disponíveis para proteger seus interesses de segurança e cortar o financiamento de grupos classificados por ele como narcoterroristas.