Europa e China lançam satélite para desvendar explosões solares que podem apagar nossas redes elétricas

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Uma colaboração científica internacional está prestes a inaugurar uma nova era na observação do clima espacial. Uma espaçonave conjunta entre a Europa e a China tem seu lançamento programado para esta terça-feira, partindo do centro espacial de Kourou, na Guiana Francesa, às 03h52 GMT. A bordo de um foguete Vega-C, o satélite terá a complexa missão de investigar o que acontece quando ventos extremos e explosões gigantes de plasma expelidas pelo Sol atingem o escudo magnético da Terra. O lançamento estava originalmente previsto para o início de abril, mas precisou ser adiado por conta de ajustes técnicos de última hora.

Batizada de SMILE (Solar Wind Magnetosphere Ionosphere Link Explorer), a espaçonave do tamanho de uma van é fruto de um esforço comum entre a Agência Espacial Europeia (ESA) e a Academia Chinesa de Ciências. O objetivo principal do projeto, segundo explicou Philippe Escoubet, cientista da ESA envolvido na missão, é decifrar de forma profunda e inédita a relação direta e dinâmica entre a Terra e o Sol. Para isso, o satélite realizará as primeiras observações de raios X do campo magnético terrestre da história.

A ameaça invisível do vento solar

O fenômeno que os cientistas buscam compreender melhor começa a milhões de quilômetros de distância. O vento solar consiste em um fluxo contínuo de partículas carregadas emitidas pelo Sol. Eventualmente, esse fluxo é intensificado por erupções maciças chamadas ejeções de massa coronal, gerando tempestades espaciais severas. Viajando a uma velocidade impressionante de aproximadamente dois milhões de quilômetros por hora, essas poderosas massas de plasma levam entre um e dois dias para alcançar o nosso planeta.

Ao atingirem o destino, a maior parte dessas partículas é desviada pelo campo magnético da Terra, que funciona como um escudo natural. No entanto, durante eventos de extrema intensidade, algumas partículas conseguem penetrar a atmosfera. Se por um lado essa interação gera o espetáculo visual das auroras boreais e austrais, por outro ela representa um risco real para a sociedade tecnológica moderna. Tempestades geomagnéticas severas têm o potencial de danificar redes elétricas, interromper sistemas de comunicação globais, avariar satélites em órbita e colocar em perigo astronautas a bordo de estações espaciais.

O histórico dessas tempestades serve de alerta. Durante o chamado Evento de Carrington, em 1859 — a pior tempestade geomagnética já registrada —, auroras brilhantes foram vistas em latitudes tão incomuns quanto o Panamá, e operadores de telégrafo ao redor do mundo chegaram a receber choques elétricos em seus equipamentos. Diante da vulnerabilidade atual da nossa infraestrutura digital e energética, os cientistas correm contra o tempo para prever e preparar o planeta para as próximas grandes explosões solares.

Tecnologia e órbita estratégica

Para capturar o invisível, a missão SMILE usará uma abordagem inovadora: detectar os raios X emitidos quando as partículas carregadas do Sol colidem com as partículas neutras da alta atmosfera terrestre. As observações serão focadas em pontos críticos, como a magnetopausa — a linha de frente onde o escudo magnético desvia o vento solar. De acordo com Dimitra Koutroumpa, pesquisadora do instituto francês CNRS que integra a missão, o satélite voará estrategicamente sobre os polos da Terra, onde esses fótons de raios X são perfeitamente visíveis.

A jornada orbital do SMILE foi planejada minuciosamente. Após o lançamento, a espaçonave será inicialmente posicionada a 700 quilômetros de altitude antes de entrar em uma órbita extremamente elíptica. Ao passar pelo Polo Sul, ela estará a 5.000 quilômetros de altura, permitindo a transmissão rápida de dados para a estação de pesquisa Bernardo O’Higgins, na Antártida. Já ao sobrevoar o Polo Norte, o satélite atingirá o ápice de 121.000 quilômetros de distância da Terra. Essa altitude impressionante garantirá uma visão panorâmica e prolongada, permitindo que a ciência observe a aurora boreal de forma ininterrupta por 45 horas seguidas pela primeira vez na história.

Para dar conta de tantas frentes, o SMILE carrega quatro instrumentos científicos de ponta. O imageador de raios X foi desenvolvido no Reino Unido, enquanto um imageador ultravioleta, um analisador de íons e um magnetômetro foram totalmente fabricados pela Academia Chinesa de Ciências. A expectativa da equipe é que o satélite comece a coletar dados valiosos apenas uma hora após alcançar sua órbita. A missão tem operação inicial prevista para durar três anos, mas cientistas e engenheiros já antecipam que o projeto poderá ser prorrogado se o desempenho da espaçonave superar as metas iniciais.

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