EUA inflamam tensão com o Brasil ao defender classificação de terrorismo para o narcotráfico
O Departamento de Estado dos Estados Unidos intensificou sua estratégia de comunicação ao publicar, através de sua conta oficial em português na rede social X, um vídeo defendendo a classificação de cartéis do narcotráfico como “organizações terroristas estrangeiras”. No material, a porta-voz Amanda Roberson esclarece que tal medida ultrapassa o valor simbólico, funcionando como um mecanismo jurídico rigoroso. Segundo Roberson, a designação permite o bloqueio de ativos financeiros, proíbe cidadãos e empresas sob jurisdição americana de realizar negócios com esses grupos e criminaliza qualquer forma de apoio logístico ou material às facções.
A manifestação ocorre em um momento de alta visibilidade internacional para as facções brasileiras. Recentemente, o jornal Wall Street Journal comparou o Primeiro Comando da Capital (PCC) à máfia italiana, descrevendo sua estrutura como um modelo de eficiência semelhante ao de grandes corporações multinacionais. Esse cenário reforça os rumores, que circulam desde março, de que o governo de Donald Trump estaria inclinado a incluir o PCC e o Comando Vermelho (CV) na lista de terrorismo global, o que gerou um estado de alerta imediato na diplomacia brasileira.
A movimentação do Departamento de Estado é monitorada com cautela pelo governo brasileiro. O principal temor de Brasília reside no risco de interferências externas diretas e no potencial de ações militares coordenadas pelos Estados Unidos, evocando paralelos com as tensões ocorridas na Venezuela. Na prática, a classificação das facções como terroristas daria respaldo legal para que Washington autorizasse operações extraterritoriais, permitindo que agentes americanos atuassem contra membros dessas organizações fora das fronteiras dos EUA, o que é visto como uma ameaça à soberania nacional.
O impasse legislativo entre Brasil e EUA
Durante reuniões bilaterais realizadas em maio de 2025, representantes do Ministério da Justiça do Brasil explicaram aos homólogos do governo Trump as limitações jurídicas do país para acompanhar tal designação. A equipe técnica detalhou que a legislação brasileira impõe critérios estritos para a tipificação de terrorismo, exigindo que os atos sejam motivados por xenofobia ou preconceito racial, étnico ou religioso com o intuito de provocar terror social. Como as facções brasileiras possuem um caráter majoritariamente mercantil e criminoso, elas não se enquadram legalmente nessa categoria sob a ótica do Direito nacional.
A influência política e a pressão da oposição
Enquanto o Executivo brasileiro resiste à medida, o tema tornou-se uma bandeira central da oposição. Conforme reportado pelo The New York Times, figuras políticas como Flávio e Eduardo Bolsonaro teriam articulado ativamente durante meses para que a administração Trump adotasse a classificação de terrorismo para o PCC e o CV. Esse movimento político busca aumentar a pressão internacional sobre a segurança pública brasileira, transformando uma questão de polícia judiciária em um complexo debate de geopolítica e defesa externa.