Série de terremotos de origem desconhecida nas profundezas da Antártida desafia cientistas

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Se um filme começasse com cientistas detectando centenas de tremores nas profundezas da Antártica — em uma região onde a geologia diz que eles simplesmente não deveriam existir —, o público logo esperaria a aparição de alienígenas ou criaturas ancestrais. No entanto, o cenário que desafia os especialistas não pertence à ficção científica. Uma equipe de pesquisadores dos Estados Unidos e da Espanha identificou mais de 500 terremotos profundos sob o continente gelado e agora corre contra o tempo para encontrar respostas que expliquem os dados.

O grande enigma reside no fato de a região visitada pelos tremores não cortar nenhuma fronteira de placa tectônica, que são as zonas de atrito tradicionalmente responsáveis por desencadear a atividade sísmica. O fenômeno observado na Antártica ilustra uma categoria que intriga a ciência: os terremotos intraplaca, que ocorrem no interior das placas e longe das margens ativas. Esse tipo de evento desafia o paradigma tradicional da geologia, que prevê estabilidade e pouca deformação para essas áreas isoladas.

Mapa e seção transversal dos terremotos detectados sob a geleira David (DG). (Ho et al., Science , 2026)
O desafio da profundidade intermediária

A situação se torna ainda mais complexa quando se analisa a profundidade dos tremores. Batizados de Terremotos de Profundidade Intermediária (IDEs, na sigla em inglês), esses abalos ocorrem a mais de 70 quilômetros abaixo da superfície. Explicar a ruptura de rochas nessas condições é uma tarefa árdua, pois as altas temperaturas e as pressões extremas do manto superior deveriam fazer com que a crosta moldasse e dobrasse de forma maleável, em vez de quebrar de maneira rígida.

Eventos intrigantes semelhantes a esses têm chamado a atenção da comunidade científica global nos últimos anos, com registros de surtos de atividade sísmica profunda em locais igualmente inesperados, como o Afeganistão, o Marrocos e a Romênia.

Os pesquisadores determinaram que a temperatura e a pressão provavelmente estão causando os terremotos. (Ho et al., Science , 2026)
Inteligência Artificial revela dados ocultos

Para mapear o fenômeno na Antártica, a equipe coletou dados de 49 estações de monitoramento sísmico espalhadas pela porção oriental do continente. Como os tremores eram sutis, os cientistas recorreram a uma técnica de Inteligência Artificial baseada em aprendizado profundo (deep learning) e aprendizado por transferência para filtrar o ruído geral e identificar os sinais sísmicos reais com alta precisão.

O sistema analisou a diferença entre as ondas primárias (ondas P), que são mais rápidas e se propagam por qualquer material, e as ondas secundárias (ondas S), que são mais lentas e viajam apenas através de rochas sólidas. O cruzamento dessas informações permitiu rastrear os pontos exatos de fraturamento das rochas. O resultado foi a identificação de 510 terremotos de profundidade intermediária concentrados sob a geleira David, em profundidades que variam entre 100 e 150 quilômetros, com magnitudes locais oscilando entre 1,6 e 3,5.

O choque de duas Antárticas

Embora a área afetada esteja longe das bordas das placas tectônicas, os pesquisadores descobriram que ela fica sobre um limite litosférico crítico, onde a placa espessa e fria da Antártica Oriental se encontra com a placa mais fina e quente da Antártica Ocidental. Esse encontro de densidades e temperaturas diferentes gera um forte gradiente de resistência mecânica na crosta.

A convergência dessas massas rochosas distintas deixa a estrutura local vulnerável. Quando a forte pressão gerada pelo manto quente que sobe se choca com o peso da geleira fria que desce, a tensão acumulada ao longo dessa fronteira invisível é liberada na forma de sismicidade. Em termos claros: a culpa definitivamente não é de monstros ou extraterrestres, mas sim de uma dinâmica subterrânea violenta e invisível aos nossos olhos.

As descobertas trazem um novo panorama para os geólogos, fornecendo uma compreensão muito mais refinada sobre as forças de tração e compressão que atuam nas profundezas da Terra. O estudo deixa evidente que os terremotos podem ser desencadeados de maneiras muito mais diversas e em locais bem menos óbvios do que a ciência previa até recentemente.

Ainda assim, o mistério não está totalmente decifrado. Embora os processos de curvatura expliquem o motivo de os abalos ocorrerem em grandes profundidades, os cientistas ainda não sabem por que eles se concentram especificamente sob a geleira David, uma vez que limites litosféricos parecidos se estendem por outras regiões ao longo das Montanhas Transantárticas. O sucesso no uso da Inteligência Artificial abre precedentes para que a mesma metodologia seja aplicada em outras partes do mundo, revelando tremores profundos e ocultos que mostram que o interior do nosso planeta é muito mais ativo do que se imagina.

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