EUA e Irã abrem negociações na Suíça, enquanto enquanto o Estreito de Ormuz segue fechado ao tráfego
A primeira rodada de negociações na Suíça entre as delegações dos EUA e do Irã foi concluída, com representantes do Catar e do Paquistão atuando como mediadores, segundo informações da agência Fars, citando suas fontes. A reunião foi suspensa após 80 minutos de negociações para a realização de consultas internas, informou o meio de comunicação. Estas complexas negociações entre os Estados Unidos e o Irã para consolidar um frágil acordo provisório de paz começaram em um resort de luxo em Bürgenstock, na Suíça, cercadas por profundas dificuldades diplomáticas.
O principal obstáculo no início das conversas é a decisão de Teerã de manter o Estreito de Ormuz fechado. A medida é um protesto do governo iraniano contra a incapacidade do presidente americano, Donald Trump, de pressionar Israel a encerrar as operações militares no Líbano.Diante do cenário de crise, a delegação dos EUA, chefiada pelo vice-presidente JD Vance, aceitou incluir a situação libanesa na pauta de discussões. Originalmente, o foco do encontro estava restrito à reabertura do estreito, ao levantamento das sanções econômicas contra o petróleo iraniano e ao descongelamento de ativos financeiros que o Irã possui no exterior. O vice-presidente americano, que já havia se reunido secretamente com os iranianos em Islamabad, destacou que espera avançar tanto na questão nuclear quanto no cessar-fogo no Líbano, embora tenha ressaltado que sua permanência no resort alpino será breve, de apenas um ou dois dias.
Mediação internacional e o fantasma da crise do petróleo
O encontro conta com o suporte do Ministério das Relações Exteriores da Suíça e a mediação de representantes do Catar e do Paquistão. De acordo com o porta-voz da diplomacia iraniana, Esmail Baghaei, a agenda foi dividida em consultas prévias com os mediadores pela manhã e uma reunião quadrilateral com a presença dos EUA no período da tarde. Pelo lado iraniano, a comitiva é liderada pelo presidente do parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, mas a forte presença do vice-ministro do petróleo e do governador do banco central deixa claro o foco absoluto de Teerã em reverter o estrangulamento econômico do país.
A urgência diplomática esbarra nas recentes turbulências no mercado global de energia. Na última semana, Donald Trump alertou que o mundo esteve a poucas semanas de sofrer com o desabastecimento de petróleo refinado, afirmando que uma recessão global só foi evitada porque ele concordou em suspender o bloqueio americano aos portos iranianos em troca da reabertura do canal de Ormuz. No entanto, o recuo temporário do Irã foi revogado após o comando militar do país acusar Washington de quebra de contrato, fechando novamente a rota marítima vital devido à retomada dos combates entre Israel e as forças do Hezbollah no Líbano, logo após um cessar-fogo anunciado na sexta-feira.
Pressão política interna desafia Trump e divide Teerã
A estratégia da Casa Branca sofre forte resistência interna nos EUA, onde apoiadores de Israel criticam duramente os ataques públicos desferidos por Trump e Vance contra o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Paralelamente, a delegação iraniana desembarcou na Suíça sob um clima de extrema polarização em Teerã. Ala mais radical do regime insiste que buscar um acordo com os americanos é uma perda de tempo, argumentando que Washington não é um parceiro confiável.
As divisões internas no Irã ganharam contornos dramáticos com as declarações de Mahmoud Nabavian, parlamentar de linha dura e crítico ferrenho das negociações. Em entrevista à TV estatal, Nabavian afirmou que o rascunho atual desrespeita as diretrizes do novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, que teria enviado cartas restringindo o escopo do diálogo e exigindo o monopólio iraniano sobre o Estreito de Ormuz, incluindo a cobrança de pedágios para beneficiar a população local. A transmissão de Nabavian foi abruptamente interrompida pelo governo, gerando a demissão de um alto executivo da emissora pública e ameaças de processos legais, já que sugerir que os diplomatas desobedecem ao líder supremo é considerado um crime gravíssimo no país.
O otimismo de Pezeshkian contra o ceticismo militar
Para tentar conter a crise política e acalmar os ânimos em Teerã, o presidente Masoud Pezeshkian veio a público defender o memorando de entendimento assinado com os EUA. Ele garantiu que todas as cláusulas do acordo são favoráveis ao Irã e que os frutos da diplomacia logo ficarão evidentes. Pezeshkian ironizou a mudança de postura de Trump, afirmando que o líder americano passou a reconhecer os direitos da nação iraniana e assegurou que US$ 6 bilhões retidos serão devolvidos ao país por meio do Catar.
O presidente iraniano também minimizou as exigências de Washington sobre o programa atômico, argumentando que o compromisso de não desenvolver armas nucleares já era uma diretriz religiosa e histórica do país, bastando apenas formalizá-la no papel. Apesar do esforço do palácio presidencial, o ceticismo continua forte entre as lideranças militares. Mohsen Rezaei, conselheiro de Khamenei, alertou nas redes sociais que o otimismo excessivo será explorado pelo inimigo, enquanto representantes da Guarda Revolucionária Islâmica reforçaram que o diálogo serve apenas para recuperar direitos, e não para selar uma reconciliação definitiva com o Ocidente.