“Pisar no freio será doloroso”: FMI prevê que guerra no Irã causará choque econômico maior que o da pandemia
O Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou para baixo suas projeções de crescimento global para 2026, sinalizando que a economia mundial pode beirar a recessão caso o conflito no Irã se prolongue. Sob o impacto direto da guerra iniciada há 40 dias por ataques de EUA e Israel, o órgão projeta um cenário de instabilidade severa, com o preço do barril de petróleo atingindo a média de US$ 100.
Mesmo em uma perspectiva mais branda — considerando uma guerra de curta duração — os números são de cautela. Nesse cenário, o crescimento estimado é de 3,1%, o que já representa uma queda de 0,2 ponto percentual em relação às projeções de janeiro. Para essa hipótese otimista, o valor médio do barril de petróleo ficaria em torno de US$ 82.
O economista-chefe do FMI, Pierre-Olivier Gourinchas, destacou em entrevista à Reuters que a crise no Golfo Pérsico representa uma ameaça muito mais profunda à estabilidade financeira global do que as tarifas impostas por Donald Trump no ano passado. Segundo Gourinchas, o que ocorre atualmente na região tem um potencial destrutivo “muito, muito maior”, conforme documentado nos novos modelos estatísticos da instituição.
O desafio dos bancos centrais e a inflação
A preocupação central reside no combate à inflação. Gourinchas alertou que os bancos centrais podem ser forçados a aplicar medidas de contenção muito mais rigorosas — e dolorosas — do que as vistas no período pós-pandemia. A diferença crucial, segundo o economista, reside na saúde atual da economia global.
Diferente de 2022, quando a invasão da Ucrânia ocorreu em um mercado superaquecido onde ajustes leves nos juros controlavam a demanda, o cenário atual apresenta maior fragilidade. Com um mercado de trabalho enfraquecido e maior oferta de produtos, os bancos centrais terão que “pisar no freio” com muito mais força para obter o mesmo resultado de desinflação.
O FMI conclui que o custo para evitar uma espiral inflacionária será alto. Caso as expectativas de preços se desvinculem da realidade, o aperto monetário necessário causará um “sofrimento econômico” significativo. Contudo, a intensidade exata dessa reação ainda depende da evolução imprevisível do conflito e de como os preços de commodities, como gás e petróleo, se estabilizarão nos próximos meses.