“Ninguém é dono da América do Sul”, afirma Lula em recado velado na Cúpula do Mercosul
Em um discurso de improviso durante a cúpula de líderes do Mercosul em Assunção, no Paraguai, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirmou que disputará a reeleição em outubro deste ano. O petista justificou a decisão como uma medida para garantir a estabilidade democrática no Brasil, alertando que a democracia voltou a sofrer ameaças globais, inclusive com tentativas de golpe recentes no cenário nacional. Com o anúncio, Lula tentará o seu quarto mandato presidencial, tendo como provável principal adversário o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
A declaração ocorreu após a leitura de um pronunciamento oficial focado nas relações institucionais do bloco econômico. Sem citar diretamente o crescimento de partidos de direita na América do Sul, o presidente brasileiro enfatizou que o Mercosul — bloco fundado em 1991 e composto por Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia — representa a melhor alternativa institucional para uma região atualmente polarizada, reforçando que o continente não tem dono.
Defesa da integração institucional acima da ideologia
O presidente brasileiro defendeu veementemente que o funcionamento do Mercosul seja preservado independentemente das posições ideológicas ou das trocas de comando nos países membros. Segundo Lula, a volatilidade política baseada em calendários eleitorais impede a consolidação de um bloco econômico verdadeiramente forte e vital. Ele fez um apelo para que, nos próximos seis meses, os líderes concentrem esforços no fortalecimento das instituições de apoio do grupo para garantir sua perenidade.
O encontro contou com a presença dos mandatários Santiago Peña (Paraguai), Yamandú Orsi (Uruguai), José Antonio Kast (Chile) e Daniel Noboa (Equador). A ausência mais notada foi a do presidente argentino, Javier Milei, adversário político de Lula e aliado da família Bolsonaro, que justificou a falta com agendas internas e enviou o chanceler Pablo Quirino como representante, após ter se reunido com Flávio Bolsonaro na véspera do evento.
Propostas tecnológicas e criação de fundo humanitário
No campo da inovação e da economia, Lula sugeriu que a arquitetura do sistema de pagamentos brasileiro PIX seja utilizada como modelo para o desenvolvimento de uma infraestrutura comum de transações financeiras no Mercosul. O objetivo da proposta é reduzir os custos operacionais e estimular o uso das moedas locais nas transações entre os parceiros do bloco. Além disso, o presidente sugeriu o compartilhamento de experiências regionais voltadas para a inteligência artificial.
A agenda humanitária também ganhou destaque na cúpula. A pedido de Lula, os líderes observaram um minuto de silêncio em homenagem às vítimas dos dois terremotos que atingiram a Venezuela na semana passada, cujo balanço oficial já contabiliza 1.719 mortos e milhares de desabrigados. Diante da tragédia, o petista defendeu a criação de um mecanismo sul-americano para o enfrentamento de desastres naturais e um fundo de financiamento voltado para a adaptação climática, classificando a iniciativa como uma necessidade estratégica.
Ao avaliar os 35 anos de trajetória do Mercosul, criados como uma resposta ao passado autoritário da região, Lula apresentou dados que comprovam a evolução do bloco. O comércio interno saltou de US$ 4,5 bilhões no ano de fundação para US$ 50 bilhões em 2025. O presidente também destacou o impacto das guerras globais na instabilidade dos preços de alimentos e energia, reforçando a importância da união regional.
Por fim, o chefe do Executivo brasileiro celebrou a ratificação de acordos comerciais com Singapura e Europa, além do avanço nas negociações com Canadá, Índia e Vietnã. Para o futuro imediato, Lula anunciou o lançamento formal das negociações para uma parceria econômica com o Japão e sinalizou que o bloco pretende buscar uma aproximação comercial semelhante com a China em breve.