Irã rebate Trump, nega acordo iminente e impõe condições para liberar navegação comercial
O governo do Irã rejeitou de forma veemente as afirmações de que um acordo com os Estados Unidos esteja iminente. Teerã apontou a desorganização nas posições americanas e as interferências de Israel como os principais obstáculos para uma resolução definitiva. Esmail Baghaei, porta-voz da equipe de negociação iraniana, confirmou que as partes chegaram a um consenso sobre grande parte dos temas em discussão, mas ressaltou que ninguém pode garantir uma assinatura imediata. O memorando pretendido pelo Irã busca condicionar a liberação da navegação comercial no Estreito de Ormuz a um cessar-fogo no Líbano e ao fim do bloqueio americano aos portos iranianos.
Por outro lado, o governo dos Estados Unidos mantém uma postura de cautela otimista, embora enfrente uma lista crescente de divergências. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, expressou o desejo por um desfecho favorável, sinalizando que Washington busca um “bom acordo” ou adotará outra abordagem para a questão. O presidente Donald Trump reforçou esse posicionamento em suas redes sociais, declarando que o pacto será significativo ou não acontecerá. O cenário atual reflete uma tentativa de reabrir os canais diplomáticos após o abandono das negociações nucleares em favor de uma política de maior pressão econômica e militar.
A pressão de Trump pelos acordos de Abraão e a rejeição regional
Em um movimento paralelo para isolar Teerã e reconfigurar a geopolítica do Oriente Médio, Donald Trump cobrou publicamente que nações como Catar, Arábia Saudita, Paquistão, Egito, Jordânia e Turquia assinem imediatamente os Acordos de Abraão, que visam à normalização das relações diplomáticas com Israel. O presidente americano sugeriu que a adesão desses países criaria uma coalizão global sem precedentes, na qual o próprio Irã poderia ser incluído caso firme o tratado com os EUA.
Apesar do forte apelo da Casa Branca, analistas e ex-diplomatas indicam que a proposta foi recebida com ceticismo e rejeição pelas lideranças regionais. Barbara Leaf, ex-secretária adjunta dos EUA para Assuntos do Oriente Próximo, afirmou que não há interesse de novos países em aderir aos acordos no momento, descrevendo a reação inicial das potências árabes e da Turquia como um “silêncio atônito”. Em Israel, a oposição liderada por Yair Lapid também criticou a estratégia, classificando o plano como prejudicial para a estabilidade da região e apontando uma perda de influência do governo israelense sobre as decisões de Washington.
O impasse Nuclear e a disputa pelos ativos congelados
O conteúdo técnico do memorando de entendimento continua sendo um ponto de forte discordância entre as potências. O Irã insiste que questões estruturais, como o destino do seu estoque de urânio altamente enriquecido, não devem constar no documento inicial, propondo apenas um compromisso para negociar o tema nos 60 dias seguintes. Trump, pressionado pela ala mais conservadora do Partido Republicano, exige uma garantia imediata de descarte do material. Historicamente, Teerã aceita reduzir a concentração do urânio, mas veta categoricamente a transferência do estoque para território americano ou russo, além de rejeitar o prazo de 20 anos de suspensão do enriquecimento exigido pelos EUA.
A liberação de cerca de US$ 12 bilhões em ativos iranianos congelados no Catar é a principal exigência econômica de Teerã. No entanto, a medida gera desgaste político para Trump, que no passado criticou duramente a gestão de Barack Obama por liberar recursos financeiros ao governo iraniano.
O negociador iraniano minimizou a estabilidade política de Washington para justificar a lentidão do processo, citando uma onda de demissões e contradições internas no governo americano. Em resposta, Trump ironizou as críticas domésticas e defendeu sua estratégia de negociação direta. O rascunho atual do acordo não prevê restrições aos mísseis balísticos do Irã nem ao seu apoio a grupos aliados na região, o que afasta o desfecho de uma rendição completa de Teerã.
Controle do Estreito de Ormuz e o cenário interno no Irã
A segurança e a taxação das rotas marítimas no Estreito de Ormuz representam outro foco de debate internacional. O Irã e Omã iniciaram conversas bilaterais para estabelecer um mecanismo de monitoramento da via expressa. O governo iraniano rejeitou as acusações de que planeja nacionalizar o estreito, argumentando que a cobrança de taxas se refere exclusivamente a serviços de navegação e proteção ambiental, e não a pedágios ilegais. Contudo, governos europeus e as monarquias do Golfo tendem a encarar a medida como uma restrição prática ao livre comércio global, mantendo o alerta sobre a segurança energética na região.
No plano interno, a sociedade iraniana observa as negociações não como a promessa de uma paz duradoura, mas como um roteiro para gerenciar uma coexistência hostil com o Ocidente. Os sinais de desgaste econômico são evidentes com a inflação acentuada nos preços dos alimentos e a manutenção de uma rígida política de execuções pelo regime. Como reflexo de uma possível flexibilização das tensões externas, o Conselho Supremo de Segurança Nacional sinalizou a reconexão do país à internet internacional, embora as autoridades temam protestos populares com o fim do bloqueio informacional.