EUA e Irã retomam combate total com bombardeios intensos e mortos que espalham explosões pelo Oriente Médio
A tensão entre Washington e Teerã atingiu o ponto mais crítico desde a prorrogação do frágil cessar-fogo no mês passado. Em uma forte ofensiva militar, os Estados Unidos realizaram bombardeios aéreos em território iraniano que resultaram na morte de ao menos 14 pessoas. A resposta da República Islâmica foi imediata, disparando projéteis contra nações vizinhas no Golfo Pérsico. O Ministério da Defesa norte-americano informou ter alvejado cerca de 90 alvos estratégicos, incluindo plataformas de mísseis e pistas de pouso, sob a justificativa de salvaguardar a livre navegação no Estreito de Ormuz, canal por onde transita um quinto da energia global.
Como contra-ataque, o Irã direcionou mísseis contra o Kuwait, o Catar e o Bahrein — onde fica baseada a Quinta Frota da Marinha dos EUA —, acionando sirenes de emergência por diversas vezes na região, embora não existam relatos consolidados sobre a extensão dos danos materiais nesses países. Os confrontos representam a maior quebra de hostilidades desde o dia 17 de junho, data em que ambas as potências assinaram um memorando de entendimento para congelar os combates e abrir caminhos institucionais rumo a um acordo de paz definitivo.
Acordo suspenso e ameaças de Trump
A operação militar norte-americana ocorreu logo após declarações do presidente Donald Trump, que deu por encerrado o pacto bilateral em virtude de ataques anteriores do Irã contra navios cargueiros. Por meio de suas redes sociais, o mandatário estadunidense publicou registros das explosões em solo iraniano e adotou um tom intimidatório, condicionando o agravamento da situação à postura de Teerã. Apesar de ter sinalizado previamente que a intervenção seria rápida e sem o intuito de arrastar as forças armadas para um conflito prolongado, as ações de Trump ampliaram as incertezas globais quanto à sobrevivência do tratado de trégua.
O gatilho para a incursão militar dos EUA foi o bombardeio iraniano a três navios comerciais no Estreito de Ormuz. O bloqueio quase total do canal promovido pelas forças navais do Irã gerou um forte impacto no mercado internacional de combustíveis, elevando os preços do petróleo e gerando forte pressão política doméstica sobre o governo de Trump às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato. O documento diplomático que agora corre risco previa a livre circulação comercial na via por 60 dias, mas esbarrou no impasse de que Teerã exige a cobrança de taxas de trânsito, medida rejeitada por Washington, que defende o caráter internacional do estreito.
Infraestrutura alvejada e denúncias de crimes de guerra
Do lado iraniano, os relatos da mídia estatal apontam para explosões em múltiplos centros urbanos, inclusive na Província de Khuzistão e na cidade portuária de Bushehr, sede de um importante complexo de energia nuclear. Entre as vítimas fatais da ofensiva civil e militar estão oficiais das forças de segurança locais e equipes de resgate. O governo do Irã acusou formalmente os Estados Unidos da prática de crimes de guerra, alegando que o bombardeio destruiu pontes de conexão logística vitais nas províncias orientais, responsáveis por dar acesso à cidade de Mashhad e por viabilizar o fluxo comercial transfronteiriço com a China.
O bombardeio às pontes ocorreu justamente no período reservado para as cerimônias fúnebres oficiais do falecido aiatolá Ali Khamenei. Autoridades iranianas sublinham que os ataques contínuos norte-americanos a ativos não militares, como usinas elétricas e estruturas logísticas de abastecimento, violam o direito humanitário internacional se não possuírem propósitos estritamente de defesa. A liderança de Teerã vê o domínio territorial do estreito como sua principal moeda de troca diplomática, enquanto a Casa Branca utiliza o poder bélico como ferramenta de coerção econômica e geopolítica.
Impasse diplomático e mediação internacional
O cenário de hostilidades mútuas enfraquece o horizonte das negociações para a paz, que deveriam ser retomadas de forma ampla após o encerramento do luto nacional iraniano. As divergências estruturais envolvem o monitoramento internacional das instalações nucleares da República Islâmica e a livre navegação no Golfo. Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do parlamento iraniano e peça-chave na mesa de negociações, declarou publicamente que a postura impositiva de Washington não surtirá efeito, alertando que quebras de acordos e intimidações não ficarão sem retaliação por parte do país.
Em paralelo, o vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Kazem Gharibabadi, reagiu fortemente às declarações de Trump de que os diplomatas estariam perdendo tempo na mesa de negociações. O diplomata classificou as falas do presidente americano como um atestado de incompetência das políticas externas baseadas exclusivamente em sanções financeiras e no uso da força. Diante do colapso iminente do diálogo, agentes mediadores tentam conter os danos. O primeiro-ministro do Catar, Sheikh Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, atuando como ponte diplomática, esteve em contato direto com os canais oficiais do Irã para advertir que os episódios recentes de agressão marítima comprometem os esforços internacionais de estabilização da região.