El Niño acelera em setembro e ameaça quebrar recordes históricos no Pacífico, com risco de intensidade severa na primavera
O fenômeno El Niño segue ganhando força neste mês de setembro, impulsionado por mudanças significativas tanto nas condições oceânicas quanto no comportamento da atmosfera. De acordo com as últimas atualizações do monitoramento do Pacífico, a anomalia semanal da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 atingiu a marca de 2°C.
Esse aquecimento apresenta maior intensidade em setores mais próximos da costa sul-americana. Na região Niño 3, a anomalia já alcança 2,8°C, enquanto na Niño 1+2 o valor chega a 3,7°C. Em contrapartida, na região Niño 4, localizada no Pacífico mais a oeste, a temperatura permanece próxima da média, registrando -0,1°C. Nas últimas semanas, as águas acima da média ganharam espaço de forma expressiva no Pacífico equatorial centro-leste e leste, mantendo um grande volume de calor armazenado abaixo da superfície. Esse cenário oceânico vem acompanhado por alterações consistentes nos ventos e na convecção tropical, confirmando o acoplamento entre oceano e atmosfera que caracteriza o fenômeno.
Critérios de intensidade e o índice RONI
Apesar de a região Niño 3.4 registrar uma anomalia semanal de 2°C, os especialistas ressaltam que esse número isolado não define a classificação oficial do episódio como de intensidade muito forte. Para análises históricas mais precisas, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) utiliza o Relative Oceanic Niño Index (RONI).
Esse índice avalia a temperatura da região Niño 3.4 em relação ao aquecimento médio de todos os oceanos tropicais, aplicando médias móveis trimestrais. O dado mais recente do RONI, referente ao trimestre de junho a agosto de 2026, aponta 1,4°C. Contudo, a rápida evolução das últimas semanas reforça a tendência de continuidade no fortalecimento do evento climático.
Probabilidade elevada de superar marcas históricas
As projeções oficiais apontam uma probabilidade superior a 90% de que o El Niño atinja a categoria de intensidade muito forte entre os trimestres de setembro a novembro de 2026 e de novembro de 2026 a janeiro de 2027. Com isso, a primavera e o início do verão emergem como o período crítico para o pico do fenômeno.
Além disso, a NOAA estima em 75% a chance de o atual episódio superar a intensidade de eventos anteriores registrados desde 1950, com base na comparação pelo RONI para o trimestre de outubro a dezembro. Entre os marcos históricos recentes, o evento de 2015/16 manteve valores acima de 2°C por vários trimestres, atingindo 2,3°C no período de novembro a janeiro. Embora ainda não seja possível cravar se este será o mais intenso da série histórica, a probabilidade estatística para tal patamar é bastante elevada.
Duração prolongada e impactos no clima
A longevidade é outra característica marcante do atual episódio. As projeções probabilísticas indicam que o El Niño deve persistir pelo menos até o trimestre de março a maio de 2027. A partir de abril do próximo ano, os indicativos apontam para uma transição gradual rumo à neutralidade, cuja probabilidade chega a 55% no trimestre de abril a junho de 2027. Dessa forma, a influência climática do fenômeno será sentida ao longo de toda a primavera, do verão e de parte do outono no Hemisfério Sul.
Apesar da alta intensidade prevista, os especialistas alertam que a força do El Niño não se traduz automaticamente em impactos extremos ou homogêneos em todas as localidades. O fenômeno aumenta a probabilidade de consolidação de padrões atmosféricos clássicos — como o regime de chuvas acima da média na Região Sul do Brasil, períodos mais secos no Norte e ondas de calor frequentes —, mas a manifestação real desses efeitos depende da interação com outros sistemas meteorológicos regionais e globais. Por essa razão, o acompanhamento contínuo por meio de previsões sazonais permanece indispensável para antecipar os reflexos do clima em cada localidade.