Caso Ramagem: após retaliação por delegado expulso em Miami, PF devolve credenciais a agente dos EUA
A Polícia Federal confirmou, nesta terça-feira (28), a devolução das credenciais de trabalho de um agente do governo dos Estados Unidos que atua na sede da corporação, em Brasília. O documento havia sido retido na semana passada como uma resposta direta do governo brasileiro a medidas adotadas pela gestão de Donald Trump contra autoridades brasileiras em solo americano. Segundo a instituição, o acesso foi normalizado oficialmente nesta segunda-feira (27).
A suspensão temporária das credenciais impediu, durante o período de validade da medida, que o agente acessasse as instalações físicas da PF e utilizasse as bases de dados compartilhadas. Essas ferramentas são fundamentais para a manutenção da cooperação internacional entre as forças de segurança de ambos os países. Além deste agente, um segundo funcionário norte-americano, Michael Myers, teve seu visto cancelado pelo Itamaraty e deixou o Brasil na última quarta-feira (23).
O princípio da reciprocidade e o estopim da crise
As sanções aplicadas pelo Brasil fundamentaram-se no princípio da reciprocidade, diretriz das relações internacionais que prevê tratamento idêntico entre Estados para garantir o equilíbrio diplomático. O movimento brasileiro ocorreu após o Escritório para Assuntos do Hemisfério Ocidental dos EUA ordenar a saída de um delegado da PF que atuava na Flórida. Na ocasião, o governo americano alegou, via redes sociais, que autoridades brasileiras tentaram contornar protocolos formais de extradição para fins políticos.
O alvo da medida americana foi o delegado Marcelo Ivo de Carvalho, que trabalhava junto ao Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE) em Miami. Carvalho era responsável por identificar e coordenar a captura de foragidos da justiça brasileira nos Estados Unidos, tendo atuado em investigações sensíveis, como o caso envolvendo o ex-deputado Alexandre Ramagem. O delegado brasileiro já retornou ao país após a interrupção prematura de sua missão, que deveria durar até agosto deste ano.
Reações institucionais e desdobramentos
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, detalhou que as medidas foram proporcionais ao tratamento recebido pelos agentes brasileiros no exterior. Enquanto Rodrigues comandou a restrição de acesso na sede em Brasília, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) ficou responsável pelo cancelamento do visto de Myers. Em nota oficial, o Itamaraty criticou a postura da Casa Branca, afirmando que a expulsão do delegado brasileiro não seguiu as boas práticas diplomáticas esperadas entre nações parceiras.
Apesar da devolução das credenciais ao agente em Brasília, o caso evidenciou um momento de tensão na cooperação policial e diplomática entre Brasília e Washington. A Polícia Federal e o Itamaraty monitoram a situação para garantir que os acordos de colaboração e intercâmbio de informações, vigentes desde 2024, sejam mantidos sob o respeito mútuo à soberania e aos ritos formais de cada Estado.