Faria Lima na mira: operação contra lavagem de dinheiro do PCC atinge o coração financeiro do Brasil

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O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, em conjunto com a Receita Federal, deflagrou uma nova fase da Operação Carbono Oculto. Batizada de Fluxo Oculto, a ação cumpre 59 mandados de busca e apreensão nos estados de São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. O objetivo principal é desarticular um esquema de infiltração da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) no mercado de combustíveis, voltado para a adulteração de produtos, sonegação fiscal e lavagem de capitais.

As investigações apontam que, mesmo após a primeira fase da operação, ocorrida em agosto de 2025, a organização criminosa continuou operando ativamente. Para burlar a fiscalização e despistar as autoridades, o grupo centralizou a movimentação financeira de dezenas de postos de combustíveis em contas unificadas, migrou recursos entre diferentes fintechs e utilizou novas empresas de fachada para substituir as estruturas que já haviam sido expostas anteriormente.

A conexão com a facção e a rejeição de delação premiada

De acordo com o Ministério Público, o PCC atua como beneficiário indireto desse ecossistema financeiro ilegal. A facção compartilhava da mesma estrutura de ocultação de recursos, utilizando as mesmas instituições de pagamento para fazer circular o dinheiro ilícito. O MP classifica essa cooperação e compartilhamento de logística entre diferentes organizações criminosas como “convergência criminal”. Relatórios de inteligência financeira identificaram transações atípicas que somam quase R$ 4 bilhões, além de conexões diretas por meio de operadores ligados à facção, como Ricardo Romano e Luiz Sérgio Ferreira da Mota.

O esquema era liderado por Mohamad Hussein Mourad, conhecido como “Primo”, e Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”. Ambos estão foragidos desde o ano passado em decorrência da Operação Tank, da Polícia Federal. Os líderes tentaram fechar um acordo de delação premiada com o Ministério Público de São Paulo, mas a proposta foi rejeitada pelos promotores. A instituição considerou que os empresários omitiram informações cruciais sobre os mecanismos de lavagem de dinheiro, a participação do PCC e episódios de corrupção policial.

O funcionamento das contas-bolsão nas fintechs

Para escoar e ocultar o patrimônio bilionário, a organização utilizava empresas e operadores financeiros como Lucas Tomé Assunção, gerente contábil do grupo, além de diversas plataformas de pagamento e fintechs. O modelo criminoso consistia no uso de “contas-bolsão” e “contas gráficas”. Os recursos de até 56 postos de combustíveis eram depositados em uma única conta bancária sob o CNPJ da instituição de pagamento.

A divisão real dos valores ocorria apenas no sistema interno da fintech, criando um ponto cego que impedia o rastreamento de origem e destino por órgãos de controle como o Banco Central e o Coaf. Entre as instituições envolvidas, a Smart Solutions Group movimentou mais de R$ 1,2 bilhão, destinando metade do valor para a holding de postos do grupo. A Ceopag também registrou movimentações atípicas de curto prazo que superam R$ 800 milhões entre créditos e débitos.

A fraude fiscal da máfia do nafta

Outro braço da operação foca na fraude física e tributária conhecida como “máfia do nafta”. Sob o comando de Raffaele Vestenius Masi e Aldo Antônio Masi, diretores da produtora Petrodansk, o grupo desviava solventes petroquímicos importados, que possuem uma carga tributária significativamente menor, para comercializá-los ilegalmente como gasolina automotiva. O esquema contava com o apoio operacional de João Eduardo de Albuquerque, Ítalo Giovanni Bergamo e outros envolvidos na logística.

O grupo recrutava pessoas em situação de vulnerabilidade social para atuarem como “laranjas” na abertura de indústrias químicas de fachada em endereços fictícios. Empresas produtoras e importadoras emitiam milhares de notas fiscais falsas simulando a venda do solvente para essas indústrias fantasma. O produto, contudo, era desviado diretamente para distribuidoras e terminais terrestres, onde era misturado à Gasolina Tipo A e vendido nos postos ao consumidor final. Estima-se o desvio de mais de 135 milhões de litros de nafta, com a emissão de mais de 10 mil notas fiscais falsas pela Petrodansk, totalizando R$ 1,49 bilhão e gerando um prejuízo de R$ 200 milhões em sonegação.

Ocultação patrimonial por fundos de investimento

A terceira frente da investigação detalha como o grupo utilizava o mercado financeiro formal, especificamente Fundos de Investimento em Direitos Creditórios Não Padronizados (FIDC-NP), para lavar o lucro obtido com o combustível adulterado. Para fazer o dinheiro retornar limpo para as produtoras, as empresas-fantasma emitiam boletos que eram quitados por esses fundos, estruturados de forma fechada com apenas um ou dois cotistas.

As transações ocorriam sem deságio e em prazos de apenas um dia, o que contraria as práticas regulares do mercado financeiro e comprova a natureza fictícia das operações. Entre os fundos utilizados como dutos de lavagem estão o Zeus FIDC-NP, Gran Capital FIDC-NP e FIDC DB Crédito Global, geridos por executivos do setor financeiro e ligados a beneficiários do esquema de combustíveis. A Justiça determinou o bloqueio do patrimônio líquido desses fundos, totalizando mais de R$ 200 milhões sequestrados. Até o momento, as defesas dos citados não foram localizadas para manifestação.

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