Segunda-feira de pânico no mercado financeiro tem queda expressiva na Bolsa e dólar termina o dia em alta
A reação dos investidores à confirmação da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições presidenciais gerou forte turbulência no mercado financeiro brasileiro. O resultado das urnas surpreendeu agentes econômicos que precificavam maior probabilidade de vitória de Flávio Bolsonaro, resultando em uma disparada no valor do dólar e em quedas expressivas na bolsa de valores e nas ações brasileiras negociadas no exterior.
Dólar dispara e Bolsa sofre forte queda no pregão
O câmbio abriu a sessão em forte alta e encerrou o dia cotado a R$ 5,4027, o que representa um salto de 8,21%. Ao longo dos negócios, a moeda norte-americana chegou a atingir a marca máxima de R$ 5,6048.
Paralelamente, o Ibovespa enfrentou um dia de forte sangria, fechando em queda de 13,88%, aos 176.608 pontos. O movimento de aversão ao risco não se limitou ao mercado local: em Nova York, o EWZ, principal fundo de índice (ETF) de ações brasileiras, despencou 26,16% antes mesmo do início oficial da sessão regular.
Paralisação dos negócios na B3 e regras do circuit breaker
Diante do tombo superior a 10% nos primeiros minutos de funcionamento, a B3 acionou o mecanismo de circuit breaker, suspendendo as negociações por 30 minutos na tentativa de contiver movimentações desordenadas. Na volta do pregão, o índice chegou a registrar recuo superior a 17%. Para gerenciar a volatilidade do dia, a B3 estabeleceu excepcionalmente a marca de 20% de queda para um eventual segundo acionamento das travas de segurança.
O recurso não era acionado no mercado brasileiro desde 2020, quando os desdobramentos da pandemia de Covid-19 e a crise global levaram o Ibovespa a registrar perdas diárias superiores a 14%.
Disparada nos juros futuros e intervenção do Tesouro Nacional
A apreensão quanto aos rumos econômicos se refletiu diretamente na curva de juros futuros, que disparou e atingiu os limites operacionais da B3. Os contratos mais longos registraram altas expressivas: a taxa para janeiro de 2029 saltou de 12,595% para 15,03%, enquanto o vencimento para 2035 avançou de 12,68% para 15,375%. Embora a alta dos contratos não se traduza de imediato em juros maiores na ponta final, a persistência do movimento tende a elevar o custo do crédito para empresas e consumidores.
Para tentar conter a volatilidade excessiva e estabilizar a precificação dos títulos públicos, o Tesouro Nacional promoveu uma operação extraordinária de recompra de 8,4 milhões de notas prefixadas (NTN-Fs), movimentando aproximadamente R$ 7,1 bilhões. A medida visou criar demanda pelos papéis e sustentar seus preços, amortecendo a pressão sobre as taxas.
Foco fiscal e incertezas políticas no radar dos analistas
O ambiente de apreensão decorre da reavaliação de cenários para a trajetória das contas públicas, inflação e taxa de juros. Especialistas apontam que a atenção do mercado estará voltada para os sinais emitidos sobre o controle de gastos e a credibilidade das metas fiscais. Em contrapartida, integrantes da equipe econômica sinalizam a formulação de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) voltada à revisão de despesas obrigatórias para tentar recuperar a confiança do setor privado.
O clima de instabilidade é ampliado pelo cenário político. Após o pronunciamento em que Flávio Bolsonaro questionou o resultado das urnas e sinalizou intenção de recorrer, analistas alertam para os riscos de judicialização do pleito devido à extensão do horário de votação em algumas seções por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).
Efeito contágio atinge ativos da Argentina
Os impactos do pleito brasileiro transbordaram para a América Latina. Na Argentina, o índice MSCI Merval registrou forte recuo de 4,50%, refletindo a apreensão dos investidores com a dinâmica política do seu principal parceiro comercial na região. Analistas internacionais apontam que a reação do mercado vizinho reforça como o cenário eleitoral e as incertezas globais continuam a desafiar as projeções econômicas.