Ex-agente do Mossad acompanhou Flávio Bolsonaro na travessia da fronteira rumo a Miami
Uma operação de grande escala e com ramificações internacionais marcou a saída do senador brasileiro Flávio Bolsonaro do país, apenas dois dias após a sua derrota na segunda volta das eleições presidenciais frente a Luiz Inácio Lula da Silva. Desrespeitando uma ordem expressa do Supremo Tribunal Federal (STF) que o impedia de abandonar o território nacional, o parlamentar atravessou a fronteira com a Argentina por via terrestre antes de embarcar num jato privado com destino aos Estados Unidos.
A travessia ocorreu por volta das 22h50 de terça-feira, 27 de outubro, quando duas carrinhas cruzaram a Ponte Internacional Tancredo Neves, rota que liga Foz do Iguaçu a Puerto Iguazú. As câmaras de videovigilância captaram a passagem dos veículos de matrículas TBB 4A65 e FDF 8E91. Numa das viaturas, conduzida por um antigo vereador, seguia Flávio Bolsonaro acompanhado por um ex-agente do Mossad — o serviço secreto israelita — que havia chegado ao Brasil oito dias antes. Na outra carrinha viajavam a sua esposa, Fernanda, e as duas filhas do casal.
Já em solo argentino, a família embarcou num jato executivo Gulfstream G400 com destino a Miami. Após uma escala técnica para reabastecimento em Guayaquil, no Equador, a aeronave aterrou na manhã de quarta-feira no aeroporto executivo de Opa-locka.
Rede de apoio internacional sob investigação
As investigações conduzidas por organismos brasileiros indicam que a logística de fuga começou a ser desenhada ainda antes da votação de 25 de outubro. Suspeita-se do envolvimento de cidadãos e figuras ligadas aos governos da Argentina e dos Estados Unidos para viabilizar a deslocação e a entrada do senador em território norte-americano.
Na Argentina, o grupo terá contado com o suporte de elementos associados ao governo de Javier Milei. Por outro lado, aponta-se a intervenção de Jason Miller, estratega político de Donald Trump, na organização da viagem de avião. Embora o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, tenha confirmado que a administração Trump autorizou a entrada de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos, recusou qualquer participação direta de Washington na montagem da operação logística.
Enquanto a fuga se desenrolava, aliados políticos no Brasil difundiam informações contraditórias sobre o paradeiro do senador, criando uma cortina de fumaça que dificultou o acompanhamento em tempo real pelas autoridades.
Desobediência judicial e desdobramentos legais
A partida do parlamentar ocorreu em desacordo direto com as determinações do juiz Alexandre de Moraes, do STF, que havia ordenado a entrega dos seus passaportes na segunda-feira, 26 de outubro, devido ao risco de fuga sinalizado pela Polícia Federal. Flávio Bolsonaro ignorou a ordem e deixou o prazo expirar. Para entrar na Argentina, utilizou um passaporte italiano válido; já no desembarque nos Estados Unidos, terá apresentado o passaporte diplomático brasileiro, apesar de o documento já ter sido cancelado pelas autoridades do seu país.
Após recusar-se a aceitar o resultado das urnas sob alegações de fraude, o senador divulgou uma carta já a partir de Miami, onde começou por autodenominar-se o “verdadeiro Presidente” do Brasil, alterando posteriormente o texto para se declarar “líder” do país. Perante os factos, a Polícia Federal avalia solicitar ao STF o congelamento de bens e contas bancárias do envolvido, enquanto o Ministério da Justiça aguarda o relatório final para decidir sobre eventuais pedidos de cooperação internacional.