EUA discutem rotular PCC e CV como grupos terroristas após apelo de filhos de Bolsonaro

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O governo dos Estados Unidos analisa a possibilidade de classificar as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Segundo informações reveladas pelo jornal The New York Times nesta sexta-feira (27), a medida ganhou força no Departamento de Estado após uma ofensiva diplomática liderada pelos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro junto a integrantes da administração de Donald Trump. Embora a Casa Branca ainda não tenha emitido um pronunciamento oficial, fontes internas indicam que o tema tem sido discutido em reuniões de alto escalão nas últimas semanas, refletindo a proximidade política entre a família Bolsonaro e o atual governo norte-americano.

Retaliações e o histórico de sanções

A movimentação ocorre em um cenário de relações bilaterais complexas, marcado por episódios recentes de pressão econômica e jurídica. No último ano, o presidente Donald Trump chegou a impor tarifas sobre produtos brasileiros e sancionou o ministro do STF, Alexandre de Moraes, como uma forma de resposta ao julgamento de Jair Bolsonaro no Brasil. Tais medidas foram revogadas apenas após um processo de negociação direta entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A potencial designação das facções como grupos terroristas surge, portanto, como um novo elemento de pressão que pode impactar diretamente a soberania e a política de segurança interna do Brasil.

Estratégia regional e precedentes na América Latina

Desde o início de seu mandato, Donald Trump tem promovido uma campanha para enquadrar grupos criminosos latino-americanos na lei antiterrorismo, utilizando essa classificação como ferramenta de política externa. Um precedente notável ocorreu com a Venezuela, onde a designação serviu de justificativa para operações militares em águas territoriais vizinhas, culminando na captura de Nicolás Maduro. Tecnicamente, a inclusão na lista do Departamento de Estado acarreta restrições severas e sanções financeiras globais. No entanto, analistas apontam uma contradição técnica, já que Washington costuma aplicar essa norma a cartéis que ameaçam diretamente a segurança interna dos EUA, como os grupos mexicanos, o que foge ao perfil de atuação atual das facções brasileiras.

O tema gerou um embate direto durante uma cúpula recente com líderes aliados de Washington. Na ocasião, o Secretário de Estado, Marco Rubio, comunicou formalmente ao ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, a intenção de incluir o PCC e o CV na lista de terrorismo. O governo brasileiro manifestou oposição imediata à proposta e rejeitou o pedido de Rubio para que o Brasil adotasse uma classificação semelhante em sua legislação nacional. O impasse revela uma divergência profunda sobre como lidar com o crime organizado transnacional, equilibrando a cooperação de segurança com a preservação da autonomia jurídica e política do país.

Igor do Vale/Estadão Conteúdo

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