Cientistas exigem reconhecimento imediato da crise climática como emergência global de saúde

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Temperaturas recordes, sobrecarga nos sistemas hospitalares e milhares de vidas perdidas globalmente acenderam um alerta definitivo entre especialistas de saúde e meio ambiente. Diante de um cenário em que os impactos do aquecimento global superam a capacidade de resposta das nações, pesquisadores internacionais defendem que a crise climática seja oficialmente reconhecida como uma emergência sanitária em escala planetária. A proposta integra o relatório de 2026 do The Lancet Countdown, estudo de referência publicado na prestigiada revista científica The Lancet.

Os dados do levantamento mostram que os riscos decorrentes de secas e calor extremo continuam a crescer em ritmo mais veloz do que as medidas de contenção adotadas, mesmo com o avanço nos investimentos em energias renováveis ao longo da última década. De acordo com Marina Romanello, diretora executiva do projeto, as ameaças à saúde física e financeira aceleraram drasticamente, com recordes de mortalidade por calor e prejuízos econômicos concentrados sobretudo nas populações e setores mais vulneráveis.

Uma década de alertas e respostas insuficientes

A publicação marca dez anos desde o lançamento da primeira edição do relatório, que uniu especialistas em saúde pública, clima, economia e análise de dados para monitorar 54 indicadores internacionais. Uma década após a assinatura do Acordo de Paris, a avaliação dos autores é categórica: embora tenha havido progressos reais na transição para energias limpas, no fortalecimento de sistemas de saúde e em regulamentações de proteção, os avanços permanecem lentos, limitados e distantes de alcançar as comunidades que mais necessitam de amparo.

O impacto direto das altas temperaturas na mortalidade humana atingiu níveis sem precedentes. Em 2023, estima-se que mais de 700 mil pessoas tenham morrido por causas ligadas ao calor no mundo, sendo que cerca de 71% dessas mortes — equivalente a 510 mil óbitos — são atribuíveis diretamente às mudanças climáticas. Entre 2016 e 2023, a média anual de fatalidades relacionadas ao calor chegou a 540,8 mil, com a participação da crise climática subindo para 68%, uma alta expressiva em relação ao patamar de 55% registrado na década anterior.

Prejuízos econômicos e colapso físico

Além do custo em vidas humanas, o calor excessivo impõe forte impacto à economia mundial ao limitar a capacidade física de trabalho. Apenas em 2025, as perdas de produtividade geradas por essas interrupções somaram cerca de US$ 1,07 trilhão globalmente, com impactos severos no Produto Interno Bruto (PIB) de países situados no Sudeste Asiático e no continente africano. As atividades agrícolas e a construção civil figuram como os setores mais prejudicados, dada a dependência do trabalho braçal ao ar livre em condições ambientais que frequentemente ultrapassam os limites biológicos suportáveis.

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O quadro se torna ainda mais grave pela combinação de múltiplos eventos extremos. Enquanto a seca se espalha e gera escassez de alimentos, desnutrição e piora na qualidade do ar e da água, outras regiões enfrentam inundações severas, que elevam o risco de surtos de doenças infectocontagiosas, respiratórias e digestivas. Esse ciclo de extremos pressiona continuamente serviços de saúde que já operam próximos do limite.

Rota contrária e caminhos para o futuro

Apesar do diagnóstico crítico, as projeções da indústria energética seguem em direção oposta às metas globais de sustentabilidade. As 100 maiores empresas do setor de petróleo e gás planejam expandir a produção de combustíveis fósseis até 2040 em um volume 150% superior ao limite necessário para manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C.

Para reverter a trajetória de danos, os cientistas recomendam que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização das Nações Unidas (ONU) oficializem a declaração de emergência sanitária global, coordenando políticas públicas para posicionar a saúde humana no centro das metas climáticas e ampliando recursos financeiros fundo perdido para países vulneráveis. O relatório destaca que governos devem tratar a redução urgente e justa das emissões de gases de efeito estufa como uma prioridade absoluta de saúde pública.

Como reforça Anthony Costello, copresidente do The Lancet Countdown, medidas de adaptação climática focadas na saúde já demonstraram eficácia prática através do combate à poluição do ar, criação de alertas preventivos e fortalecimento de hospitais. No entanto, o especialista adverte que tais conquistas serão insuficientes se o ritmo de redução das emissões continuar em descompasso com a escala dos danos provocados pelo aquecimento do planeta.

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