Alerta falso da Defesa Civil: PF apura se dados de servidores foram vendidos na deepweb
A Polícia Federal está investigando se os dados e credenciais de servidores utilizados no ataque cibernético contra a Defesa Civil Nacional foram comercializados ou compartilhados em fóruns de hackers e na deep web. O ataque, ocorrido na madrugada de sábado, disparou notificações falsas para milhões de brasileiros. No momento, os investigadores realizam diligências para mapear o caminho dessas informações e identificar os responsáveis pelas transações criminosas.
Até agora, a apuração apontou que uma das contas de acesso utilizadas pertencia a um ex-bombeiro militar do estado do Pará. O inquérito instaurado pela PF possui duas frentes principais: localizar os autores dos disparos falsos e mapear as vulnerabilidades do sistema da Defesa Civil para implementar reforços na segurança digital do órgão.
Setor de elite da Polícia Federal assume o caso
A condução das investigações está a cargo da Diretoria de Repressão aos Crimes Cibernéticos (Dciber) da Polícia Federal, uma unidade especializada no combate a invasões contra órgãos públicos, fraudes no sistema financeiro, lavagem de dinheiro com criptoativos e crimes de alta tecnologia. O caso chegou formalmente ao diretor da Dciber, o delegado Otávio Russo, por meio de um ofício enviado pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, detalhando que a invasão pode ter se originado a partir de acessos vinculados à Defesa Civil do Pará.
A equipe da Dciber acumula um histórico de grandes operações contra o crime digital no país. O setor foi responsável pela Operação Magna Fraus, que desvendou um ataque histórico ao sistema financeiro nacional via credenciais da C&M Software ligadas ao Pix, gerando um prejuízo estimado em mais de R$ 1 bilhão. Nos últimos dois anos, a diretoria também desarticulou quadrilhas que criavam páginas falsas do Enem, vendiam acessos ao sistema do INSS e operavam ataques virtuais sob demanda contra instituições de peso, como o Exército, o Serpro, a Dataprev e a própria PF.
O impacto do ataque e a mensagem misteriosa
De acordo com os relatórios do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, as mensagens fraudulentas atingiram celulares de cidadãos em seis capitais brasileiras, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Curitiba e Rio Branco, além de cobrir o Distrito Federal e áreas internas de São Paulo, Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul. Os avisos foram emitidos com classificação de nível extremo — o patamar mais alto do sistema —, simulando riscos iminentes de alagamentos, tornados e deslizamentos de terra.
O teor das mensagens chamou a atenção por carregar a palavra “misantropia”, termo que define a aversão, o desprezo ou o ódio à humanidade. De acordo com o dicionário Michaelis, o conceito refere-se à rejeição ou desconfiança profunda em relação à natureza humana, sendo também associado ao isolamento social. A inserção da palavra nos alertas gerou estranheza e reforçou o caráter hostil da invasão.
Resposta do governo e o funcionamento do sistema
Em nota oficial, a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) informou que a plataforma de alertas precisou ser desativada por volta de 1h30 de sábado, logo após a identificação dos disparos em massa realizados por um agente externo ao sistema. A principal linha de investigação adotada pelo governo federal trabalha com a certeza de um ataque hacker coordenado.
O sistema afetado utiliza a tecnologia Cell Broadcast, desenvolvida justamente para agilizar respostas a desastres naturais e emergências. Essa ferramenta permite o envio de notificações com avisos sonoros diretamente aos celulares que estão dentro de uma área de risco, sem a necessidade de um cadastro prévio do usuário. O desligamento temporário foi uma medida de contenção para impedir que o pânico continuasse a ser disseminado enquanto a segurança da rede é restabelecida.