Tensão no comércio: sobretaxa americana sobre o Brasil ameaça chegar a 37,5%
O cenário comercial entre Brasil e Estados Unidos ganhou contornos de alerta com a possibilidade de a carga tarifária sobre os produtos brasileiros atingir 37,5%. Essa estimativa é compartilhada por pastas estratégicas do governo federal, como o Ministério das Relações Exteriores, a Fazenda e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, com base em investigações recentes do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR).
O percentual total é a soma de duas frentes de sanções. A primeira prevê uma taxação de 25% sob o argumento de que o Brasil adota barreiras que restringem o comércio bilateral. A segunda linha de investigação adiciona outros 12,5%, justificando que o Brasil, ao lado de mais 59 nações, falhou na fiscalização contra a entrada de produtos ligados ao trabalho forçado. Se implementada, a sobretaxa se aproximará do patamar de 40% registrado no ano anterior.
Diplomacia em campo na OCDE
Diante do agravamento da situação, o chanceler brasileiro Mauro Vieira e o representante de Comércio norte-americano, Jamieson Greer, trataram do tema de forma breve na França, onde participam da reunião da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Integrantes da comitiva brasileira relataram que Greer demonstrou abertura para o diálogo, enquanto Vieira defendeu a necessidade de intensificar as conversas antes que as recomendações do USTR se consolidem.
Apesar do acirramento nas relações comerciais, diplomatas afirmam que os canais de comunicação continuam ativos. O processo segue o cronograma de 30 dias de negociação estipulado pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump durante o último encontro bilateral em Washington. A percepção nos bastidores é de que ainda há margem política para tentar reverter as medidas.
A postura de Brasília, no entanto, subiu de tom no Palácio do Planalto. Em reunião ministerial, o presidente Lula criticou publicamente a postura de Washington e direcionou suas queixas ao secretário de Estado americano, afirmando que o tamanho e a história do Brasil não permitem aceitar o tratamento recebido. O presidente confirmou que enviará uma nova carta a Donald Trump para rebater os argumentos das tarifas, classificando a posição americana como equivocada.
Internamente, Lula instruiu sua equipe a montar uma defesa firme da soberania nacional, com foco especial na proteção ao PIX. O sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central virou alvo das críticas americanas, que o apontam como uma prática comercial questionável. Em resposta, o presidente reforçou o slogan de que o sistema pertence ao Brasil, ecoando o tom de discursos recentes feitos em agendas pelo interior do país.
Estratégia comercial e crise política
O descontentamento brasileiro também se traduziu em ameaças de diversificação de parcerias e mudanças de agenda. Lula sinalizou que o país buscará outros compradores caso os Estados Unidos mantenham os bloqueios, e voltou atrás na decisão de não participar da Cúpula do G7 na França, confirmando sua presença no evento que ocorre em meados de junho.
A crise comercial já é tratada pelo governo como um problema de impacto político direto, especialmente pelo contexto do calendário eleitoral. Apesar do discurso combativo do presidente, assessores técnicos e auxiliares de governo acreditam que a manutenção dos canais diplomáticos abre espaço para uma estratégia de redução de danos. O plano brasileiro é focar a negociação de maneira separada para cada uma das tarifas, tentando derrubar ao menos uma das sobretaxas propostas.