EUA ignoram Planalto e oficializam classificação terrorista de PCC e CV
O Departamento de Estado dos Estados Unidos oficializou, nesta quinta-feira (28), a decisão de designar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. A medida, que entra em vigor em 5 de junho, enquadra as facções brasileiras tanto como “terroristas globais especialmente designados” (SDGTs) quanto como “organizações terroristas estrangeiras” (FTOs).
A determinação ocorre na sequência de uma agenda diplomática intensa em Washington. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) esteve reunido com o secretário de Estado, Marco Rubio, na quarta-feira (27), encontro no qual o apoio à medida foi reiterado. O parlamentar também tratou do tema diretamente com o presidente Donald Trump na Casa Branca, em reunião realizada na terça-feira (26).
Justificativa e alcance da medida
Em comunicado oficial, o governo norte-americano descreveu o CV e o PCC como algumas das organizações criminosas mais violentas do Brasil, responsáveis por ataques brutais contra civis, autoridades e agentes de segurança. Washington sublinhou que a influência dessas facções transcende as fronteiras brasileiras, alcançando diversos países da região e o próprio território dos Estados Unidos.
A Casa Branca destacou que a classificação reflete a prioridade da administração Trump em desmantelar cartéis e grupos criminosos no continente. O Departamento de Estado afirmou que continuará utilizando todos os instrumentos à disposição para proteger a segurança nacional, bloquear o fluxo de drogas e interromper as fontes de financiamento dessas organizações, rotulando-as de “narcoterroristas”.
Tensão diplomática com o governo brasileiro
A decisão de Washington enfrenta resistência por parte do governo Lula. Nos bastidores, a gestão petista articulou para evitar a classificação, sob o temor de que o rótulo de “terrorista” possa abrir precedentes para ações mais agressivas dos EUA em solo brasileiro, incluindo cenários extremos como intervenções militares, baseadas em doutrinas de segurança nacional estadunidenses.
A divergência sobre o tema não é recente. Em maio de 2025, o Departamento de Sanções dos EUA já havia solicitado que o Brasil adotasse a mesma classificação, o que foi rejeitado. Na ocasião, o secretário nacional de Segurança Pública, Mario Sarrubbo, justificou a negativa baseando-se na legislação brasileira. Segundo Sarrubbo, a Lei Antiterrorismo de 2016 exige motivações ideológicas, políticas ou religiosas para que um grupo seja assim caracterizado, enquanto o PCC e o CV possuem como motor principal a obtenção de lucro e o crime organizado, o que, sob a ótica da lei nacional, não configura terrorismo.
Atuação do PCC em solo americano
Apesar da resistência brasileira, o governo dos EUA sustenta sua posição citando a presença e o risco dessas organizações em seu território. Autoridades norte-americanas já identificaram membros do PCC atuando em diversos estados, como Flórida, Nova York, Nova Jersey, Connecticut e Tennessee. Além disso, o gabinete do procurador federal em Massachusetts indiciou 18 brasileiros com suposta ligação com a facção no ano passado. A envergadura do grupo, considerado o maior das Américas, com cerca de 40 mil membros e ramificações em aproximadamente 30 países, também foi um fator determinante para a decisão definitiva de Washington.