Mercosul e União Europeia assinam acordo histórico em Assunção, em desafio à guerra tarifária de Trump

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Após um longo processo de negociação que se estendeu por mais de duas décadas, o Mercado Comum do Sul (Mercosul) e a União Europeia (UE) oficializaram, neste sábado, a assinatura de um acordo de livre comércio durante cerimônia realizada no Paraguai.

A consolidação da aliança ganha contornos estratégicos diante da atual guerra tarifária fomentada pela gestão de Donald Trump nos Estados Unidos, posicionando os dois blocos como defensores da abertura comercial.

O evento em Assunção foi marcado por discursos que equilibraram o entusiasmo pela integração econômica com o reconhecimento dos desafios políticos e sociais que o pacto enfrenta, especialmente no setor agrícola europeu.

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anfitrião do encontro, destacou que o objetivo central da medida é gerar melhorias práticas na qualidade de vida dos milhões de cidadãos que compõem as duas regiões.

Em um tom de realismo diplomático, Peña salientou que o texto alcançado pode não ser o cenário ideal de benefícios para todas as partes, mas enfatizou que a procrastinação não era mais uma opção viável. Segundo ele, evitar a “armadilha da complacência” foi fundamental para que o bloco sul-americano não perdesse a oportunidade de integrar um mercado de tamanha magnitude, priorizando o bem comum acima de um acordo perfeito que nunca se concretizava.

Lideranças regionais celebram o fortalecimento do bloco sul-americano

A importância estratégica da Argentina e do Brasil na conclusão das tratativas foi amplamente reconhecida durante o evento. O presidente argentino, Javier Milei, descreveu a assinatura como talvez o marco mais relevante da história do Mercosul, ressaltando o papel decisivo desempenhado por Buenos Aires durante sua recente presidência temporária.

Da mesma forma, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva — que foi representado pelo chanceler Mauro Vieira na cerimônia —, já havia manifestado na véspera que a criação desta aliança une cerca de 720 milhões de pessoas sob um PIB combinado de 22 trilhões de dólares, configurando uma das parcerias comerciais mais diversificadas do planeta.

Complementando a visão brasileira, o vice-presidente Geraldo Alckmin reforçou que as últimas alterações no tratado foram essenciais para salvaguardar os interesses do Mercosul. O ministro paraguaio das Relações Exteriores, Rubén Ramírez Lezcano, corroborou essa perspectiva ao afirmar que o acordo busca um ponto de equilíbrio necessário, servindo como um divisor de águas para as relações externas da organização sul-americana, apesar das divergências que ainda persistem em setores específicos.

A resistência europeia e o impasse no Parlamento

Apesar da celebração no Paraguai, o caminho para a implementação definitiva do acordo ainda enfrenta obstáculos significativos no continente europeu. O tratado precisa agora ser ratificado pelo Parlamento Europeu, onde o cenário de votação é considerado incerto.

A resistência é personificada por protestos intensos de agricultores em países como França e Espanha, que utilizam tratores para paralisar cidades e fronteiras em sinal de protesto contra o que consideram uma competição desleal com os produtores sul-americanos. Na França, a crise já transbordou para a política interna, com a oposição articulando pedidos de impeachment contra o presidente Emmanuel Macron e moções de censura contra a cúpula da Comissão Europeia.

Impactos econômicos e o fim de um ciclo de 25 anos

Na prática, o acordo prevê a redução ou eliminação de tarifas para cerca de 90% das mercadorias trocadas entre os blocos, integrando um mercado que representa um quarto do PIB global.

A redução tributária ocorrerá de forma gradual ao longo de 15 anos, beneficiando setores como o automotivo e de autopeças, além de abrir as portas da Europa para uma vasta gama de produtos sul-americanos, incluindo carnes, frutas, grãos e artigos de couro. A medida é vista como um forte contraponto ao protecionismo e aos fechamentos de mercado observados na política internacional recente.

A jornada para este desfecho teve início no ano 2000 e passou por momentos de estagnação até o entendimento preliminar em 2019. O impulso final ocorreu em dezembro de 2024, quando Ursula von der Leyen anunciou o encerramento das negociações técnicas.

Embora o presidente Lula tenha sido o único chefe de Estado do bloco a não comparecer fisicamente à assinatura, sua atuação foi citada por seus pares como um dos principais motores para que o processo, enfim, saísse do papel, solidificando o Brasil como um parceiro comercial indispensável, responsável pela vasta maioria das exportações do Mercosul para a Europa.

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