Coronavírus, Dengue e H1N1: PF investiga furto de 24 cepas de vírus em laboratório da Unicamp
Uma investigação conduzida pela Polícia Federal revelou que ao menos 24 cepas de vírus foram transportadas sem autorização de um laboratório de alta segurança da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O caso, que veio à tona após apurações do programa Fantástico e do portal G1, envolve amostras de patógenos conhecidos como dengue, zika, chikungunya, herpes e variantes da gripe, como H1N1 e H3N2. Além dos agentes que afetam humanos, a lista inclui 13 tipos de vírus que infectam animais, todos pertencentes ao Laboratório de Virologia do Instituto de Biologia (IB).
As suspeitas recaem sobre a professora doutora Soledad Palameta Miller, da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), e seu marido, o veterinário e doutorando Michael Edward Miller. O desaparecimento dos materiais foi notado em meados de fevereiro por uma pesquisadora da unidade, mas a notificação oficial à Polícia Federal ocorreu apenas em março. Segundo os investigadores, registros de câmeras de segurança teriam flagrado Michael retirando caixas do laboratório de nível de biossegurança 3 (NB-3), área para a qual a docente não possuía autorização de acesso direta.
Tentativa de destruição de provas e apreensão do material
Após o início das investigações, a Polícia Federal realizou buscas na residência da pesquisadora. A apuração indica que, ao perceber a movimentação policial, Soledad teria retornado à universidade para descartar parte do material biológico em outros laboratórios da instituição, em uma tentativa de destruir evidências do crime. A manobra resultou em sua prisão em flagrante por fraude processual e outros delitos. No entanto, após o pagamento de fiança, a Justiça Federal concedeu liberdade provisória à docente, sob a condição de que ela permaneça afastada das instalações laboratoriais da Unicamp.
As amostras foram eventualmente localizadas e recuperadas em três prédios diferentes da universidade: na própria Faculdade de Engenharia de Alimentos e em dois laboratórios do Instituto de Biologia. Apesar da gravidade do transporte irregular de agentes infecciosos, a Polícia Federal informou que não foram encontrados indícios de contaminação externa ou de planos para terrorismo biológico. A motivação por trás do furto das cepas ainda está sendo investigada pelas autoridades federais e por uma sindicância interna aberta pela Unicamp.
Riscos biológicos e protocolos de segurança
O laboratório de onde as cepas foram subtraídas opera sob o protocolo NB-3, uma classificação destinada ao manejo de micro-organismos que representam alto risco individual e moderado risco para a comunidade. Estes agentes podem causar doenças letais, muitas vezes transmitidas pelo ar, exigindo barreiras de contenção rígidas, como câmaras pressurizadas e acesso restrito. A universidade reforçou, em nota oficial, que o episódio foi um caso isolado e que seus laboratórios operam em conformidade com normas rígidas de biossegurança, contando com o apoio da Anvisa para a rápida resolução do incidente.
Atualmente, Soledad Palameta Miller responde por furto qualificado, perigo para a vida ou saúde, fraude processual e transporte irregular de organismos. Seu marido, Michael Miller, é investigado pela participação direta no furto das caixas. O caso reacende o debate sobre o monitoramento de infraestruturas sensíveis de pesquisa no Brasil, que conta com apenas 12 laboratórios habilitados para o nível 3 de segurança, enquanto a primeira unidade de nível 4 segue em construção na cidade de Campinas.