Flávio Bolsonaro e Nikolas apostam em ofensiva digital e de rua para tentar virar o jogo no Nordeste
Na reta final do segundo turno, a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) intensificou a presença no Nordeste com o objetivo de enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e reduzir a vantagem histórica do petismo na região. Para isso, a estratégia da direita combina atos de rua em capitais e cidades estratégicas com uma forte ofensiva digital, marcada por vídeos nas redes sociais e um minidocumentário de grande repercussão produzido pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).
A comitiva do candidato do PL percorreu regiões metropolitanas e o chamado “Nordeste profundo” ao lado de aliados, buscando quebrar resistências locais. A montagem dos palanques físicos contou com articulação direta do candidato a vice, o deputado federal Alfredo Gaspar (PL), passando por estados como Alagoas, Bahia, Maranhão, Sergipe e Ceará. Em Salvador, no último sábado, Flávio focou seu discurso na crítica aos programas de transferência de renda e na promessa de mobilidade social. “No meu governo, eu vou fazer de tudo para o pobre ficar rico, enquanto o atual governo faz de tudo para o pobre ficar miserável”, declarou em ato público.
A nova retórica e o combate à “tutela política”
Para romper o domínio de Lula na região, a campanha adotou uma mudança perceptível de tom, apostando na tática de “despetização” do debate regional. A retórica anterior, que muitas vezes recorria a apontamentos acusatórios sobre o padrão eleitoral nordestino e gerava acusações de preconceito, foi substituída por uma narrativa de acolhimento e emancipação.
O discurso passou a enfatizar que a população nordestina não é culpada pelo atraso socioeconômico, mas sim vítima de uma tutela política exercida pelo PT. Os aliados de Flávio argumentam que os governos petistas não resolveram problemas estruturais básicos nem integraram o cidadão comum à prosperidade nacional. A força eleitoral do partido na região continua fortemente associada aos programas sociais, visto que o Nordeste concentra cerca de 45% dos lares atendidos pelo Bolsa Família, segundo dados oficiais do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social.
O fenômeno digital e o impacto do minidocumentário
No ambiente digital, Nikolas Ferreira transformou seu perfil em um diário de campanha permanente, apostando em conteúdos dinâmicos gravados em feiras livres, periferias e centros urbanos. A série de produções audiovisuais destaca o desemprego, a violência urbana e a carência de medicamentos, focando nas dores reais da população em vez do confronto direto.
O ponto alto dessa estratégia foi o minidocumentário “O Nordeste que foi esquecido”, publicado no perfil do deputado mineiro e que alcançou a marca de 153 milhões de visualizações em menos de 24 horas no Instagram. Além disso, o parlamentar tem realizado transmissões ao vivo e debates espontâneos com militantes de esquerda em plataformas como o TikTok, gerando cortes rápidos de alto engajamento.
Especialistas ponderam, contudo, sobre o real alcance prático desses números. O analista político João Cândido, da Amelati Consultoria, ressalta que o vídeo se destaca pela criatividade e pelo tom humanizado, reduzindo barreiras de rejeição à direita, mas pondera que o volume de visualizações não se traduz automaticamente em votos. No mesmo sentido, o especialista em liberdade de expressão André Marsiglia observa que, embora o PT mantenha solidez na região — tendo liderado o primeiro turno de 2026 nos nove estados nordestinos —, a margem de vantagem da esquerda tem diminuído gradualmente a cada pleito, acirrando a disputa neste segundo turno.