Alemanha encerra era de paz e prepara exército de 460 mil soldados à medida que aumentam os temores de guerra com a Rússia
Em um movimento decisivo para a segurança do continente, o ministro da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, apresentou nesta quarta-feira uma nova estratégia militar que visa reduzir a dependência histórica dos Estados Unidos e fortalecer a autonomia europeia frente à crescente ameaça da Rússia. O plano estabelece uma transformação profunda na Bundeswehr (as Forças Armadas alemãs), com o objetivo explícito de transformá-la no exército convencional mais poderoso da Europa. Segundo Pistorius, a meta é construir resiliência imediata, ampliar capacidades a médio prazo e consolidar a superioridade tecnológica em um horizonte de longo prazo.
Esta mudança de postura reflete a percepção de que, embora Washington continue sendo um pilar indispensável para a OTAN, o foco estratégico norte-americano está migrando progressivamente para a região Indo-Pacífica. Diante desse cenário, a Alemanha se propõe a assumir uma responsabilidade central na aliança, não apenas cumprindo metas fiscais, mas tornando-se o eixo logístico e operacional da defesa europeia. O novo documento define como o país exercerá a dissuasão e, se necessário, conduzirá operações de combate em defesa própria e de seus aliados.
O fim de uma era: da paz à prontidão de guerra
A estratégia militar é descrita pelo governo como uma resposta direta à instabilidade global e à invasão russa na Ucrânia, rompendo com décadas de uma política externa pautada por pressupostos de paz duradoura. O documento alerta que a Rússia já está criando as pré-condições para um possível ataque contra membros da OTAN, o que exige que a Alemanha abandone a inércia burocrática. Esta doutrina concretiza a vontade política manifestada desde 2022, transformando investimentos — como o fundo especial de 100 bilhões de euros e reformas nas leis de teto de dívida — em uma estrutura militar prática e operacional.
Para viabilizar essa transformação, Berlim planeja uma expansão de pessoal sem precedentes, visando um contingente total de 460 mil militares, entre soldados da ativa e reservistas. Atualmente, a força ativa conta com cerca de 185 mil membros. A reserva, por sua vez, deixará de ser um elemento secundário para se tornar um pilar central da defesa nacional, refletindo a função geográfica da Alemanha como o principal centro logístico para qualquer conflito futuro no território europeu.
Cronograma de expansão e flexibilidade tática
O fortalecimento do poderio militar alemão está estruturado em três fases distintas que se estendem pela próxima década. Até 2029, a prioridade máxima será a “maximização rápida” da prontidão, preparando as tropas para sustentar operações de curto prazo. A segunda fase, com conclusão prevista para 2035, focará na expansão estrutural de capacidades em todos os domínios, seguindo as diretrizes da OTAN. Por fim, até 2039, a meta é atingir a excelência tecnológica por meio de inovação constante e integração de sistemas de última geração.
Além do crescimento numérico, a nova estratégia introduz uma mudança na filosofia de combate, trocando estruturas rígidas por uma abordagem baseada em “efeitos”. Em vez de focar estritamente na contagem de tanques ou aeronaves, o planejamento militar será orientado pelos resultados estratégicos que a Bundeswehr deve entregar, priorizando áreas críticas como defesa antiaérea, sistemas antimísseis e capacidades de ataque de longo alcance. Com isso, a Alemanha busca não apenas se rearmar, mas modernizar a forma como projeta poder no século XXI.
Reação do Kremlin
O Kremlin manifestou profunda preocupação e utilizou um tom de ironia ao comentar as recentes declarações da Alemanha sobre o fortalecimento de seu poderio militar. O porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov, afirmou que a ambição de Berlim de estabelecer o exército convencional mais robusto do continente europeu é um movimento que desperta receios históricos. Segundo o representante russo, a nova orientação estratégica alemã, que classifica a Rússia como a maior ameaça à segurança, pode ser interpretada como um sinal alarmante para a estabilidade regional.
Ao ser questionado sobre os rumos que a Alemanha está tomando e o impacto disso sobre os demais países vizinhos, Peskov recorreu a referências históricas para criticar a postura de Berlim. Ele ironizou o fato de as aspirações militares alemãs evocarem memórias de conflitos passados, sugerindo que o continente já viu esse tipo de mobilização em outros momentos sombrios da história. Para o porta-voz, o anúncio desses planos não trará segurança, mas sim uma sensação de desconforto generalizado entre as nações europeias.
O “arrepio na espinha” da diplomacia russa
Peskov enfatizou que a reação pública aos detalhes da nova estratégia militar alemã será de temor. Ele argumentou que, ao tomarem conhecimento da magnitude dos planos de rearmamento e da retórica adotada pelo Ministério da Defesa alemão, muitos cidadãos europeus sentirão um “arrepio na espinha”. Essa declaração reforça a narrativa de Moscou de que a militarização da Europa Ocidental, liderada pela Alemanha, é vista como um fator de provocação e instabilidade, em vez de uma medida puramente defensiva.