Rússia eleva tom nuclear e acusa Europa de planejar armar Ucrânia com bomba atômica
O cenário diplomático entre Leste e Oeste atingiu um novo patamar de tensão nesta terça-feira. Dmitry Medvedev, alto funcionário da segurança russa, disparou ameaças de ataques nucleares contra Kiev, Paris e Londres. A ofensiva verbal ocorre após o Kremlin divulgar relatos, sem qualquer comprovação, de que a França e o Reino Unido estariam planejando fornecer armamento nuclear à Ucrânia.
As alegações partiram inicialmente do SVR, o serviço de inteligência estrangeira da Rússia. Segundo o órgão, as potências europeias estariam preparando o envio de uma “bomba nuclear” para garantir uma vitória militar ucraniana. A narrativa foi rapidamente replicada pela agência estatal TASS e por redes de desinformação pró-Rússia, que classificaram o suposto plano como uma violação do direito internacional.
Desinformação e o tratado de não proliferação
Especialistas e órgãos internacionais apontam que as acusações russas carecem de base factual e contradizem tratados globais de segurança. De acordo com o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), a França e o Reino Unido são estados detentores de armas nucleares reconhecidos, mas estão proibidos de transferir tais tecnologias para países não detentores, como é o caso da Ucrânia.
Vale lembrar que a Ucrânia abriu mão de seu arsenal nuclear ainda em 1994, sob o Memorando de Budapeste, recebendo em troca garantias de segurança da própria Rússia, além dos EUA e Reino Unido. Atualmente, o presidente Volodymyr Zelenskyy mantém o foco na adesão à OTAN como principal estratégia de dissuasão, tratando a opção nuclear apenas como um cenário hipotético extremo caso a integração à aliança seja bloqueada permanentemente.
Reações internacionais e o papel da França e Reino Unido
As respostas das capitais europeias foram diretas. O Ministério das Relações Exteriores da França, por meio de sua plataforma de combate à desinformação, refutou as alegações, sugerindo que Moscou tenta desviar o foco do apoio internacional à Ucrânia no quarto ano de uma invasão que o Kremlin planejou para durar apenas três dias. Do lado britânico, o governo classificou as afirmações como “totalmente infundadas”.
Curiosamente, o relatório do SVR poupou a Alemanha, afirmando que Berlim teria se recusado a participar da suposta iniciativa. O Ministério da Defesa alemão, mantendo sua postura institucional, declarou que não comenta especulações provenientes de fontes de inteligência estrangeira ou notícias de mídia sem verificação.
A estratégia russa por trás das datas simbólicas
Para analistas políticos, o momento da divulgação dessas acusações não é acidental. A narrativa surge no período em que a invasão em larga escala da Ucrânia completa quatro anos. Denis Cenusa, pesquisador da Escola de Governança Transnacional, observa que o serviço de inteligência russo utiliza datas memoráveis para inundar o espaço informativo com desinformação, buscando distorcer a realidade e desacreditar líderes europeus perante seus públicos internos.
Esta não é a primeira vez que Moscou recorre a essa tática. Em 2022, alegações semelhantes sobre uma “bomba suja” ucraniana foram feitas pelo Kremlin, mas acabaram desmentidas após inspeções rigorosas da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que não encontrou qualquer evidência de tais atividades em solo ucraniano.