Anomalia gravitacional gigante na Antártica ganha força e preocupa cientistas

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Embora a imagem clássica da Terra seja a de uma esfera perfeita, a realidade geofísica revela um cenário muito mais irregular. Se pudéssemos visualizar apenas o campo gravitacional do planeta — o chamado geoide —, ele se pareceria menos com um globo de cristal e mais com uma batata acidentada, repleta de saliências e depressões. Uma das reentrâncias mais profundas desse mapa, onde a gravidade é curiosamente mais fraca, localiza-se sob a Antártida.

Recentemente, novos modelos científicos revelaram que essa “Depressão Geoide Antártica” não é apenas uma característica estática, mas um fenômeno em constante intensificação, movido pelo deslocamento colossal de rochas nas profundezas do manto terrestre, como um gigante que se espreguiça em um sono de milhões de anos.

A anatomia invisível das profundezas

A irregularidade do geoide ocorre porque a gravidade está diretamente ligada à massa. Como o interior da Terra possui uma distribuição desigual de minerais e rochas com densidades distintas, a força da gravidade oscila de um ponto a outro.

Na prática, a diferença é sutil — um ser humano pesaria apenas alguns gramas a menos em uma dessas depressões —, mas para a ciência, essa variação funciona como uma janela para processos que ocorrem a milhares de quilômetros abaixo de nossos pés.

Para mapear esse “buraco” gravitacional, os geofísicos Alessandro Forte e Petar Glišović utilizaram ondas sísmicas de terremotos como uma espécie de tomografia computadorizada planetária, iluminando o interior da Terra para construir um modelo de densidade em 3D.

O desafio seguinte foi reconstruir o passado. Ao inserir os dados de densidade em modelos físicos de convecção do manto, os pesquisadores conseguiram “voltar o relógio” geológico até o início da era Cenozoica, há 70 milhões de anos. Os resultados indicam que, embora a depressão sob a Antártida exista há dezenas de milhões de anos, ela sofreu uma transformação drástica há cerca de 50 milhões de anos. Esse período marca uma mudança súbita no eixo de rotação da Terra e o início de uma reconfiguração profunda: placas tectônicas mergulharam sob o continente antártico, enquanto massas de material quente e flutuante subiram das profundezas, moldando a anomalia que observamos hoje.

A gravidade que molda os oceanos e o gelo

A descoberta vai além da curiosidade geológica e toca na estabilidade climática do planeta. O geoide exerce uma influência direta no nível do mar; onde a gravidade é mais fraca, a superfície do oceano tende a baixar. Coincidentemente, a intensificação dessa depressão gravitacional há cerca de 34 milhões de anos alinha-se ao período em que a Antártida começou a ser coberta por gelo.

Os cientistas especulam que a queda no nível do mar local, provocada pela mudança no geoide, pode ter desempenhado um papel crucial no crescimento e na fixação das calotas polares. Compreender essa dança entre o interior do planeta e a superfície é essencial para prever como as grandes camadas de gelo reagirão às mudanças futuras.

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