Nova IA da Meta pretende manter perfis ativos após a morte com direito a conversas e vídeos

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A fronteira entre a vida digital e a morte tornou-se mais tênue com uma nova movimentação da Meta. A gigante de tecnologia, detentora do Facebook, Instagram e WhatsApp, obteve recentemente uma patente que descreve o uso de inteligência artificial para simular a presença ativa de pessoas falecidas em suas plataformas.

O objetivo, segundo documentos revelados por sites especializados, é permitir que perfis permaneçam ativos “indefinidamente”, interagindo como se o usuário ainda estivesse vivo.

A tecnologia baseia-se em modelos de linguagem de larga escala, treinados com o histórico de dados deixado pelo indivíduo. Publicações, comentários e mensagens privadas serviriam de base para que a IA possa responder a contatos, comentar fotos e até participar de chamadas de vídeo ou áudio, replicando a personalidade e os padrões de fala de quem já partiu.

A lógica da “presença póstuma”

No documento da patente, a Meta justifica a inovação sob a ótica do impacto emocional. A empresa argumenta que a ausência súbita de um usuário após o falecimento causa um efeito “severo e duradouro” em sua rede de contatos. Ao criar uma versão sintética do falecido, a plataforma busca suavizar essa transição, treinando o sistema para elogiar amigos, interagir em grupos e manter o fluxo de comunicação privado de forma póstuma.

Dilemas éticos e o processo de luto

A proposta, no entanto, acendeu um alerta entre especialistas em direitos digitais e sociologia. Edina Harbina, professora da Universidade de Birmingham, ressalta que a questão ultrapassa as barreiras legais, atingindo profundos dilemas sociais e filosóficos sobre o direito à memória. O cerne da crítica reside na “ressurreição digital” artificial, que poderia não apenas desrespeitar a vontade do falecido, mas também lucrar sobre a fragilidade emocional dos sobreviventes.

Para o sociólogo Joseph Davis, da Universidade da Virgínia, a ferramenta pode ser prejudicial à saúde mental. Davis adverte que a tecnologia cria uma ilusão de presença que confunde quem está em luto, impedindo a aceitação da perda real. Segundo ele, o processo de deixar os mortos “descansarem em paz” é uma etapa vital da experiência humana que a IA corre o risco de corromper.

Embora a Meta negue planos imediatos para implementar o recurso em larga escala, analistas apontam que a patente revela motivações econômicas claras. Manter contas ativas significa manter o engajamento elevado e garantir um fluxo constante de novos dados para o treinamento de algoritmos.

A estratégia transformaria perfis de usuários falecidos em ativos digitais perpétuos, gerando interações que alimentam o ecossistema das redes sociais, mesmo quando o autor original dos dados não pode mais dar seu consentimento. O debate agora se volta para a necessidade de regulamentação sobre quem realmente detém o controle da nossa identidade digital após o fim da vida física.

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