Abu Dhabi sedia cimeira entre Rússia, Ucrânia e EUA sob impasse territorial na tentativa de paz

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Pela primeira vez desde a invasão em larga escala em fevereiro de 2022, representantes de Ucrânia, Rússia e Estados Unidos iniciaram negociações trilaterais formais. O encontro, realizado na sexta-feira em Abu Dhabi, marca o ponto mais alto da diplomacia direta entre as partes, embora ocorra sob uma nuvem de incerteza.

Enquanto Donald Trump exerce forte pressão sobre Kiev para um cessar-fogo, o Kremlin mantém exigências territoriais maximalistas, o que torna o desfecho do diálogo incerto.

O cenário é agravado pela crise energética na Ucrânia, que enfrenta um inverno rigoroso com infraestrutura devastada, e por tensões diplomáticas paralelas envolvendo as pretensões de Trump sobre a Groenlândia, fator que tem distraído e irritado aliados europeus.

O presidente Volodymyr Zelenskyy confirmou que as conversas ocorrem em nível de negociadores técnicos, ressaltando que este formato não era visto há muito tempo. Em mensagem de voz enviada à imprensa, ele assegurou que a delegação ucraniana possui diretrizes claras. Apesar da disposição ao diálogo, o futuro das áreas ocupadas no leste permanece como o principal pomo da discórdia.

Zelenskyy enfatizou em Davos que a Rússia também deve estar preparada para fazer concessões e que garantias de segurança robustas entre Washington e Kiev já estão rascunhadas, aguardando apenas ratificação oficial em caso de acordo.

O líder ucraniano aproveitou para criticar a passividade europeia, acusando o continente de negligenciar sua própria defesa enquanto aguarda as decisões dos Estados Unidos.

A postura russa nas negociações é de rigidez estratégica. Ao enviar o almirante Igor Kostyukov, chefe da inteligência militar (GRU), o Kremlin sinaliza que o foco inicial é estritamente operacional e militar, em vez de político. O governo de Vladimir Putin reiterou publicamente que a retirada total das tropas ucranianas da região de Donbas é uma condição inegociável para o fim das hostilidades.

Paralelamente, o chanceler Sergei Lavrov e outros altos funcionários indicaram que o objetivo vai além do território, sugerindo que qualquer acordo que mantenha o atual governo ucraniano no poder seria inaceitável, o que sugere uma agenda oculta de mudança de regime. Além disso, Moscou exige que a Ucrânia renuncie permanentemente à entrada na OTAN e proíba a presença de tropas estrangeiras em seu solo.

A administração Trump tem intensificado a diplomacia de bastidores, com o enviado especial Steve Witkoff e o conselheiro Jared Kushner liderando as frentes de contato. Antes de Abu Dhabi, a equipe americana esteve em Moscou para reuniões diretas com Putin, discutindo termos de segurança que teriam sido previamente alinhavados com Zelenskyy em Davos. O comissário Josh Gruenbaum, recentemente nomeado para o “conselho de paz” de Trump, também integra a equipe de negociação.

Embora o governo americano pressione por um desfecho rápido — com Trump chegando a classificar uma eventual falta de acordo como “estupidez” de ambos os líderes — críticos e aliados europeus temem que a pressa da Casa Branca force a Ucrânia a aceitar termos desfavoráveis. O governo alemão, por exemplo, manifestou ceticismo, questionando se Moscou usaria um eventual cessar-fogo apenas como uma pausa tática para lançar novos ataques no futuro.

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