Hubble detecta novo objeto astronômico: uma galáxia feita de matéria escura e sem estrelas
Uma equipe internacional de astrônomos, utilizando dados do Telescópio Espacial Hubble, anunciou a descoberta de um objeto astronômico inédito: uma nuvem de matéria escura rica em gás, mas totalmente desprovida de estrelas.
Apelidado de “Nuvem-9”, o objeto é considerado uma “relíquia” ou um fóssil cósmico da época em que as primeiras galáxias começaram a se formar. A detecção, confirmada como a primeira do seu tipo, oferece uma oportunidade única para estudar a matéria escura, que compõe a maior parte da massa do universo, mas permanece invisível por não emitir luz.
Para os cientistas, a importância da Nuvem-9 reside justamente no que ela não possui. “Esta é a história de uma galáxia que não se formou”, explicou Alejandro Benitez-Llambay, investigador principal da Universidade Milano-Bicocca. Segundo o pesquisador, a ausência de estrelas comprova teorias sobre a evolução do universo local, funcionando como um bloco primordial que estagnou em seu desenvolvimento. A descoberta foi detalhada no periódico The Astrophysical Journal Letters e apresentada durante a reunião da Sociedade Astronômica Americana, em Phoenix.

Um fóssil de hidrogênio e matéria escura
Tecnicamente chamada de RELHIC (Nuvem de Hidrogênio Limitada pela Reionização), a estrutura é um remanescente dos primórdios do universo. Embora nuvens de hidrogênio sejam conhecidas perto da Via Láctea, a Nuvem-9 se diferencia por ser pequena, compacta e altamente esférica.
O seu núcleo de hidrogênio neutro possui cerca de 4.900 anos-luz de diâmetro e uma massa equivalente a um milhão de sóis. No entanto, os cálculos indicam que a matéria escura que sustenta o sistema é gigantesca, pesando cerca de cinco bilhões de massas solares. Se fosse um pouco mais massiva, a nuvem teria colapsado para formar estrelas; se fosse menor, teria se dispersado.
A precisão do Hubble na busca por “casas abandonadas”
A identificação definitiva só foi possível graças à sensibilidade do Hubble. O objeto havia sido detectado inicialmente por radiotelescópios na China e nos Estados Unidos, mas apenas as câmeras do telescópio espacial puderam garantir que não havia qualquer estrela escondida no local. “Poderíamos argumentar que era apenas uma galáxia anã muito tênue, mas o Hubble provou que não há nada lá”, afirmou Gagandeep Anand, do Instituto de Ciência do Telescópio Espacial (STScI). Para os membros da equipe, a Nuvem-9 é como uma “casa abandonada” no nosso vizinho galáctico, sugerindo que o universo pode estar repleto dessas estruturas invisíveis que nunca completaram sua formação.
Localizada nas proximidades da galáxia espiral Messier 94 (M94), a Nuvem-9 pode, teoricamente, vir a formar estrelas no futuro caso consiga acumular mais massa ou interagir de forma específica com suas vizinhas. Por enquanto, ela permanece como um laboratório natural para entender os componentes escuros do cosmos. A descoberta reforça o papel vital do Hubble, que após três décadas de operação, continua a revelar mistérios que desafiam a compreensão tradicional sobre como o universo visível — e o invisível — é construído.


